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| por marta marques |
Estava feliz.
O Sol insolente acalorava o quarto enquanto arranhava-me as
pernas. Os lençóis fediam a nós e a minha pele tresandava à tua. Os músculos doridos,
ressacados de tudo o que nos atrevemos a fazer por amor.
Ainda estava quente.
Cansada.
E descansava na cama onde me cansei. Nua e sem frio, despida
de preconceitos e crenças e pensamentos futuros. Proibi tudo o que limita
qualquer amor proibido. Pelo menos naquela hora que me restava, naquele quarto
de hotel. Num dos muitos onde estivemos. Os dois, sempre em segredo e sem
segredos um para o outro. A minha mente extenuada não se deu ao trabalho de cogitar
na dor que prometia vir. A decisão do fim foi minha e isso bastava-me para
ganhar todas as armaduras necessárias. O momento ainda consistia agarrado em
mim e com este uma jubilação que me mimoseava com um sorriso sereno.
Entreguei-me a ti, deixei os meus sentimentos e a minha casca
derreterem-se em ti, aceitei-te dentro de mim como se me marcasses para sempre.
Sei que houve entrega tua, sei que sim. Embora de nada me sirva entregas às
migalhas.
Julgo que a entrega não existe em qualquer casal nem para
aqueles sem amores impedidos. Há quem não saiba estar feliz e acha-se bem, como
se tivesse o direito de ignorar a verdade, quem viva a rotina, as
responsabilidades e a imagem. Quem pense que vive mas que não imagina o que é
viver. As horas passadas juntos neste leito foram intensas e fizeram-nos
explodir, libertar os dramas, hipocrisias e aborrecimentos. Foram de entrega,
contudo de nada me servem.
Os nossos corpos fundiram-se num e concederam corda ao meu
coração. Assim estava feliz, sabendo que ia ficar triste.
Porque nada dura para sempre, nem a infelicidade.
