quarta-feira, 5 de novembro de 2014

por marta marques
Uma mulher acorda com uma pedra colorida, que nunca viu antes, nas mãos.
Uma mulher acorda com uma serpente colorida a dançar-lhe no corpo.
Uma mulher acorda nua com o corpo pintado de forma precauciosa e colorida.
Joaquim amou as três.
Jamais deixamos de amar quem amámos. O amor não acaba, renova. Se não evoluiu não é amor é estagnação, cobardia. O amor não envelhece, amplia tal uma teia de aranha atulhada de fios, admiravelmente agrilhoados. O amor é brilhante. Se não, não é amor.
Joaquim sabia acerca do amor.
Madalena foi a primeira. Com ela aprendeu a sentir as pessoas, a usar o coração e a bambear a cabeça. Descobriu beleza no comum e a degustar cada onda do mar. Fazer amor com Madalena foi clarificar como duas pessoas se transformam numa, e a profundidade de um beijo.
Anna foi quem tirou a sede da fúria, chegou-lhe ao ego e estremeceu as suas máscaras. Com Anna não se fingia. Era a força e a sensualidade.
Morgana foi a companheira. O poisar. O sentir vontade de abraçar e ficar. Um amor entrelaçado com garras, coerente, com oxigénio e cumplicidade.
Porque há quem morra sem ter vivido um amor.
Amar uma pessoa que não tem o mesmo sangue que nós mas sim a mesma alma, a mesma energia, a mesma língua. Porque quando há amor há sintonia.
Joaquim partia para sempre, já não tinha um coração para usar.
Joaquim prometeu uma lembrança antes de partir.
Não para garantir que nunca fosse esquecido. Os amores verdadeiros não se esquecem. Apenas um adeus peculiar.
Joaquim deixou-lhe uma pedra colorida como atributo à beleza no pormenor, uma serpente pela pulcritude no inesperado e no físico e uma pintura corporal como símbolo da perfeição num todo e sem máscaras materiais.
A mulher enrolou-se solitária em conchinha, de pedra colorida na mão fechada, enquanto a serpente escorregava no corpo pintado e assim ficou, como se de um quadro de amor se tratasse.