Início
 |
| por marta marques |
Subiu
as escadas sem folgo, como se os pulmões já não fossem pulmões e sim duas bolas
de ar prontas a rebentar. Essa era a verdade, queria que explodissem sem qualquer
hipótese de conservar uma gota de oxigénio. Estourassem como uma botija tóxica
e a sufocassem lentamente como uma mordida de uma cascavel. Por isso continuou,
subiu as escadas e com um cigarro na boca, absorvido no tempo em que subiu mais
cinco lanços de escadas. Já sem ver, sem oxigenação no cérebro, desfrutou do estonteamento
onde circulava e gostou. Sempre saboreou o fora do normal, as asas da loucura,
na realidade a insanidade da liberdade. Atreveu-se a olhar para cima e tomou
consciência do que ainda faltava caminhar, e sorriu. Apoiada no corrimão de
madeira maciço mas vetusto sentiu-lhe os veios fortes e invejou-lhe a delicadeza
em tanta robustez. E continuou. Subiu as ultimas escadas já sem resistir à
gravidade, como se voltasse ao início. Tal como na origem, quando ainda não sabemos
ser possível simplesmente aguentar com o peso da cabeça, agora já nem se
aguentava com o corpo, já não suportava com o peso de uma vida. Seria o fim
como o começo? Acreditou que sim. Sabia que sim. E na ultima das escadas
deitou-se enovelada como um feto e ali ficou.