quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Início



por marta marques
Subiu as escadas sem folgo, como se os pulmões já não fossem pulmões e sim duas bolas de ar prontas a rebentar. Essa era a verdade, queria que explodissem sem qualquer hipótese de conservar uma gota de oxigénio. Estourassem como uma botija tóxica e a sufocassem lentamente como uma mordida de uma cascavel. Por isso continuou, subiu as escadas e com um cigarro na boca, absorvido no tempo em que subiu mais cinco lanços de escadas. Já sem ver, sem oxigenação no cérebro, desfrutou do estonteamento onde circulava e gostou. Sempre saboreou o fora do normal, as asas da loucura, na realidade a insanidade da liberdade. Atreveu-se a olhar para cima e tomou consciência do que ainda faltava caminhar, e sorriu. Apoiada no corrimão de madeira maciço mas vetusto sentiu-lhe os veios fortes e invejou-lhe a delicadeza em tanta robustez. E continuou. Subiu as ultimas escadas já sem resistir à gravidade, como se voltasse ao início. Tal como na origem, quando ainda não sabemos ser possível simplesmente aguentar com o peso da cabeça, agora já nem se aguentava com o corpo, já não suportava com o peso de uma vida. Seria o fim como o começo? Acreditou que sim. Sabia que sim. E na ultima das escadas deitou-se enovelada como um feto e ali ficou.