| por marta marques |
Não começou com um beijo, habitualmente começa com um beijo.
Um beijo sedento e ensopado com características fáceis de entregarem-me sem
sustentação a ti, um beijo que despe todas as mascarilhas, guardas, juízos e amparos
que possa ter.
Desenroupar a alma e deixa-la fluir.
Começou com um olhar, um olhar de resistência. Primeiro um
olhar com excesso de água, embaciado e com um fundo de amargura. Um olhar sem
medo já sem nada a perder, um olhar sincero sem qualquer desvio, sem força de
pestanejo, cru, direto ao coração. Um olhar longo – demorado – e embora sem
movimento, estremeceu-me, suspirei como se arfasse, respirei como que a
resistir a um ataque de coração, transpirei como a correr numa maratona. Os
maxilares apertei-os com vigor, tanto que senti dor e, por isso, insisti.
Sentir dor física, dor que afadiga e desgasta, mas preferível à dor da
arritmia.
O meu olhar dizia tudo o que te queria dizer, porém tudo o que
não me agradava dizer-te. Brotaram centelhas fluorescentes em forma de pó pelos
meus olhos e tu contemplaste-as. Os teus olhos levaram com remanescências.
Fizeste-te valente como sempre, indiferente e orgulhoso, não
me largaste a vista. Fixado em mim assim ficamos. Talvez meses, talvez anos,
talvez vidas. Até que a bola, o frenesim, o peso, a corrosão desvaneceram.
Assim. E veio aquela paz de quando perdoamos realmente, quando conseguimos
aceitar mesmo que não compreendamos. Baixar as defesas tem duplo efeito,
calmaria e um derrubar físico, julgo que uma parte de nós desmaia.
Deixei de fixar-te, deixei tombar-me e equilibrei a minha
mente moída nos meus braços, arriada naquele sofá tão velho quanto confortável,
naquela situação o lugar mais perfeito. Não chorei porque há muito que não pedalava
nesse campo e, embora uma pessoa nunca se esqueça de como é andar de bicicleta,
ao inicio -depois de uma grande pausa sem pedalar- é como não o soubesse fazer.
Todavia estava desejosa de pedalar por aí e derramar o sofrimento, o fôlego, a
raiva, a carência, a entrega enjaulada. Necessitava escorregar, vomitar tudo
pela vista, porque pela vista fazem-se os melhores vómitos e os menos odoríficos.
Encharcamos o rosto mas podemos saborear o mar. As minhas lágrimas vêm do mar,
isso eu sei. Salgadas, gosto-lhes do sabor. Tal como o mar me traz conforto, as
minhas lágrimas de sal dão paz, cicatrizam-me. Mas não consegui. Não me irrompeu
nem uma pedra de sal. Ao invés desse vómito, ou de outros como os verbais que
usualmente me saem mal pois tenho tendência a salpicar com palavrões que
estragam o sabor, fiquei em silêncio. Também não virei costas. Não fui eu.
Aquela não fui eu. Ou talvez tenha sido a vez que mais o
fui. Fechei os olhos e senti-te. Vomitei-me. A minha pele fez chapa na tua, encaixou,
como sempre.
As memórias das nossas peles pareceram não se importar com
tudo o que não encaixa com as nossas mentes. O meu coração disparou tanto que creio
que chocou no teu, doeu, doeu até se abrir. Estava fechado, sem ar. Senti de
imediato oxigénio no corpo, uma restruturação celular, vida. Ai! Juro que já
não me lembrava de como era. Por mais que tenha sido de tantos outros, estava
fechada, enclausurada. Mesmo sabendo que não vales nem um terço de qualquer um
dos outros, era contigo que me queria libertar, gritar.
Abri-me para te receber. O calor entre mim era tanto que
vieste diretamente à toca, entraste sem dificuldade. Já sabias não haver
nenhuma toca como aquela. Humidade perfeita, calor dos trópicos e tamanho feito
à medida. Abri-me tanto até inclinar as costas e empinar ainda mais o rabo, alçado
como tu tanto gostas. Senti as tuas mãos encherem-se das minhas nádegas duras,
quase tão duras como estavas tu dentro de mim. Os movimentos não foram de experimentações
indianas mas de quem se ama e valoriza a sensualidade. Afoguei-me em ti,
afoguei-me no meu desejo. Não sei quanto durou este momento porque não houve
tempo, o tempo também se afogou na sensualidade.
O olhar voltou desta vez com lume, fixo mas com vida,
lemo-nos, sempre nos lemos tão bem, e lambuzamo-nos dando preferência aos
nossos lábios precisados de serem beijados com verdade. Prendeste-me pelos
cabelos e obrigaste-me a fixar-te de novo, era o momento do fim, aquele momento
que aspiramos mas que queremos que demore a chegar. E explodimos juntos, não consegui
fixar-te todo o tempo pela intensidade, cerrei o olhar a fim de entrar naquela
viagem que só uma mulher sabe. O momento das luzes, do corpo efervescente e da
certeza não certa que se vai desintegrar de tanto prazer.
Gemi, claro que gemi, gemi para ti, gemi para mim, gemi
naturalmente sem esforço e foi um gemido guarnecido pelo teu, mais rijo, mais
grosso, viril.
Uma explosão que após rebentar matou-me a força. Caí, por
cima do teu peito, de ouvido no teu coração acelerado.
Mais um momento sem tempo. Até ao momento em que te olhei de
novo com aflição. De muletas na pouca força que me sobrava, ergui, vesti e
fui-me embora. Fui-me.