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| por marta marques |
Já não o via há mais de uma década quando despontou com o
dobro do tamanho, o dobro do charme e o dobro da maturidade. Não foi bom. Pensar
que perdi a hipótese de viver o amor com quem ia dobrar para melhor. Podiam ter
sido 10 anos de discussões, esforço, mas valeria a pena. Pensava eu, na galeria,
enquanto me babava pelos quadros expressivos e demolidores que ele, presentemente
artista, expunha. Olhei lhe as mãos, pareciam igualmente o dobro, fortes, unhas
à medida, pele com toques de tinta teimosa, com devaneios exuberantes, o que me
atrai. Os caracóis, também eles maiores, concebo os interlaçados nos meus dedos.
Camisa propositadamente amarrotada, aberta no botão certo, calças de cor neutra
favorecem lhe o rabo, sapatos confortáveis, olhos mais experientes e cansados
com o tal toque de amadurecido que me desarma. Já eu não dobrei em nada. Sempre
fui inteligente, bonita e madura, agora apenas estou mais velha, com menos
humor, mais desencantada. Ele descobriu me. Convidou me para a sua exposição.
Há 10 anos não havia mancha nas suas pinturas que me parecesse promissora, digna.
Achava o um fracasso, um homem sem tempero, sem ambição. Sem apeteceres
maiores, sem lutas internas. Agora sentia me uma genuína parva por não ter interceptado
o seu potencial. Convidou me, obviamente, a fim de chutar na minha arrogância. Educado,
recebeu me com um olhar de quem vê, sorriso firme, sem troça.
Sem atitude, agarro me ao espumante. Aprecio as telas e, de
soslaio, a ele. Imagino nos juntos agora. Duas pessoas que se reencontram no
amor dez anos depois. Chega uma mulher com o dobro do meu brilho, uma mulher
sorridente. Dirige se a ele. Um abraço, um beijo apaixonado. Finjo não me
importar.
Saio da galeria de lágrima rasteira. Coração dobrado ao
meio.
