terça-feira, 25 de outubro de 2016

Bocejo te

por Marta Marques
Quero bocejar, abrir a boca com toda a força, partir o maxilar. Saber que dei o máximo. Bocejar te pela espera, bocejar te pela frieza, bocejar te pela falta de humor. Quero que saibas o quanto bocejo por ti, o quanto te deito pela boca. 
Estás me nas entranhas, mergulhado como um vírus, árduo de matar. Pior. Cresces de dia para dia e bloqueias me o peito. Existe um bocejo preso. Tira me o ar. Culpa tua. Quero que o saibas e me libertes o bocejo, quero o expelir com um som estereofónico. Derrubar te os tímpanos. 
Quero ver te sangrar pelos canais auditivos até ficares despejado, vazio, caído. Quero bocejar a falta de toque, a ausência de olhares profundos, o suor seco dos nossos corpos em noites de desamor. Bocejar até me transformar num monstro. Uma aberração que te coma o cadáver e o esmigalhe. Quero bocejar a falta de mim em ti, a falta de mim em mim, a vontade de corar quando te vejo. És a sombra que escolhi teimosamente, o desejo falhado, a larva do meu ego. Deixa me bocejar te, carimbar te, tatuar te o meu hálito azedo. Quero o que não sei fazer, cerro os maxilares com tanta força. E os dentes rangem. A ousadia do desespero não me deixa bocejar. De mãos dadas passeamos num silencio barulhento. Mais simples cobrir os ouvidos do que bocejar. Mais fácil a escuridão, mais descomplicado cegar. Ver o par falhado é aceitar o nada. Bocejo te sem força, sem incentivo porém a fervilhar. Quero te dentro de mim com vida, alegre neste corpo como que numa segunda pele, uma proteção acolhedora. Quero te e fecho a boca para que não me fujas num bocejo. Quero bocejar flores frescas, vida, sorrisos de mel. Cede me um bocejo.