| por Marta Marques |
Quero bocejar, abrir a boca com toda a força, partir o
maxilar. Saber que dei o máximo. Bocejar te pela espera, bocejar te pela
frieza, bocejar te pela falta de humor. Quero que saibas o quanto bocejo por
ti, o quanto te deito pela boca.
Estás me nas entranhas, mergulhado como um
vírus, árduo de matar. Pior. Cresces de dia para dia e bloqueias me o peito. Existe
um bocejo preso. Tira me o ar. Culpa tua. Quero que o saibas e me libertes o
bocejo, quero o expelir com um som estereofónico. Derrubar te os tímpanos.
Quero ver te sangrar pelos canais auditivos até ficares despejado, vazio,
caído. Quero bocejar a falta de toque, a ausência de olhares profundos, o suor
seco dos nossos corpos em noites de desamor. Bocejar até me transformar num
monstro. Uma aberração que te coma o cadáver e o esmigalhe. Quero bocejar a
falta de mim em ti, a falta de mim em mim, a vontade de corar quando te vejo.
És a sombra que escolhi teimosamente, o desejo falhado, a larva do meu ego.
Deixa me bocejar te, carimbar te, tatuar te o meu hálito azedo. Quero o que não
sei fazer, cerro os maxilares com tanta força. E os dentes rangem. A ousadia do
desespero não me deixa bocejar. De mãos dadas passeamos num silencio
barulhento. Mais simples cobrir os ouvidos do que bocejar. Mais fácil a escuridão,
mais descomplicado cegar. Ver o par falhado é aceitar o nada. Bocejo te sem
força, sem incentivo porém a fervilhar. Quero te dentro de mim com vida, alegre
neste corpo como que numa segunda pele, uma proteção acolhedora. Quero te e
fecho a boca para que não me fujas num bocejo. Quero bocejar flores frescas,
vida, sorrisos de mel. Cede me um bocejo.