terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Perdeu se

por marta marques
Inácio perdeu a mãe, perdeu a mulher que dizia ser a da sua vida, perdeu o pai, perdeu a alegria, perdeu o amor próprio, perdeu o cão que o acompanhava para tudo, perdeu o prazer pela vida, perdeu a vontade de comer, perdeu as asas, perdeu o chão, perdeu o emprego, perdeu o sorriso, perdeu se.
Na casa onde viveu com os pais descobrem se baratas exploradoras e procriadoras, cadeiras viradas, loiça maquilhada de comida seca, ressequida e fétida. Ao cheiro a tabaco junta se um nevoeiro viciado e misturado com álcool azedo. Lá fora, as árvores de frutos e as flores delicadas inseridas na serenidade mudaram de cenário, deram espaço ao desmazelo, à seca, ao desconforto.
Inácio perdeu e perdeu se no único lugar onde se encontrava desde o primeiro dia em que respirou, sem culpa desfez se de memórias e apegos, de choros, de exaustão. Apenas ainda estimava as estrelas. Exibidoras. Descaradas. Espampanantes. Únicas, mesmo que inseridas num cardume lampejante.
Para Inácio o mar era o céu porque nunca testemunhou um oceano. A noite sabia lhe a sal, a tempero, o aconchego que encontrava nos desgostos. Pressentia que a lua suportava tudo o que não suportava e nela contava os suspiros de isolamento. No escuro ganhava suporte. O seu lado negro patenteava se e conseguia sorrir sem mover os lábios. A solidão, essa apenas se aguentava com as palavras que ainda recordava. As mais fortes a do seu pai, palavras sábias quanto doces, desde sempre melodiosas, verdadeiras e que abraçavam.
Abraços. Nunca pensou ser o sumo do vazio. Também os perdeu, o sabor de corações que se tocam e se ouvem em segredo. A magia do abraço.

Hoje abraçava se a si mesmo enquanto saboreava o sal das suas lágrimas secas.