domingo, 11 de dezembro de 2016

obsessão

Chegou à hora marcada. 3 minutos depois. Dia 3 às 3 e 33 da tarde. Sessões assinaladas para os dias 3 de cada mês, às 3 e 30, a saber que chegaria persistentemente às 3 e 33.
Nunca comentei. Era óbvio demais.
Terminávamos às 4 e 35, pois o total dos número, sendo doze, era na realidade 1 e 2, igual a 3. Fazia questão de me dizer. “São 4 e 35, tenho de ir”.
Desta vez contou, entusiasmada, ter conhecido o Sebastião, um rapaz da sua idade, no dia 21, exatamente às 3 da manhã, quando bebia uns copos com os amigos. Revelou que nessa noite dormiram juntos e no dia seguinte eram 3 da tarde quando se separaram. Sebastião ligou lhe 3 dias depois e, desde aí, assumiram o namoro. Estava apaixonada. Era a terceira vez na vida que se apaixonava. “À terceira é de vez”, pronunciava o clichê enquanto sorria como há muito não o fazia. Sebastião vivia em Campo de Ourique no número 3 e, verdade, no 3º andar. “Não é incrível?”.
Sim, acenava lhe com a cabeça e esboçava um sorriso.
Nas sessões falávamos de sentimentos, momentos, pensamentos, mas nunca do 3. Como terapeuta já o devia ter feito. Porém sentia o 3 tão privado que nunca o fiz. Se fosse para falar do 3 teria de ser ela. Em 33 sessões nunca o fez.
Ela até fazia 33 anos este ano. Fazer 33 anos em Março de 2001. 3 mais 3 e mais 3. Queria isto dizer alguma coisa? Não.
Para ela, tudo.

Sempre reflexionei desvendar o 3, despi lo, confrontá lo. Eram 3 e 33 quando olhei para o relógio e senti uma empatia bizarra com aquela hora. Sentia o 3 como um segredo nosso, cumplicidade. Ela não o dizia, eu também não.
por marta marques