| por marta marques |
Mais uma vez, talvez a última, creio
que a última, te espero. Sentado na mesma cadeira de perna coxa, pele gasta e
em tons de saudosismo, sempre junto à janela que olha para a rua onde passas. Por
entre gente distingues te pela testa larga, os olhos de formato de sorriso ao
contrário e os lábios desenhados e tão naturais que cheiram a fruta fresca por
nunca terem transportado um batom, a
tua forma de caminhar serena quanto apressada, equilibrada de mochila às
costas, cabelo solto, bravio, porém ajustado, caído nos ombros como se de uma
pintura se tratasse, uma aguarela diluída nas cores exatas, luminosa.
Inadmissível não sobressaíres no meio dos robôs da cidade, bando de cara escura
e sem rosto, bando em tom de marcha, intocável e deprimido. Também eu deprimido,
triste talvez. Cansado será a palavra certa. Sentado sonho no dia em que foste
minha. Não no sentido de me pertenceres de te materializar, minha por estares
dentro de mim e eu dentro de ti, fundidos em emoções que exprimimos sem medos e
sem nos reprimirem o coração. Dizia eu, supunha que eras minha, ridículo que
sou. Nunca o foste, nunca o serás. Apenas minha em ambição, minha no
pensamento, pensamento corrosivo que me destruiu nestes anos. A minha cabeça
desfeita, como se fosses um ácido. De início apenas triturava e num instante matou
me o raciocínio, tirou me a paz, as gargalhadas e o choro, deixou me
anestesiado. Mais uma vez, prevejo pela última vez, espero te de mãos enroladas
pousadas na mesa junto das chávenas de café borradas. Mãos enrugadas e
manchadas, ásperas do frio e do desmazelo que trago no coração. Mais uma vez, espero
te junto do vidro embaciado e ainda com alguma ansia. Porém, garanto te, pela
última vez.