domingo, 30 de outubro de 2016

movimento

por Marta Marques
Velocidade, arrasto, percepções, ruído repetido mas confortável, reflexo na janela, olhar hipnótico nas paisagens estáticas que se mexem e desfazem como uma aguarela.
Sinto me como aquelas imagens, desfaço me aos poucos e tento enganar me, fingir que as minhas memórias também ficam para trás. Derretem se na rapidez, na ansia de andar para a frente.
Na carruagem revejo me numa criança divertida com o pai e lembro me de ti, das nossas gargalhadas contagiantes, nos olhos brilhantes, nos olhares carinhosos, no amor inquestionável. Também nós andámos tantas vezes de comboio, viagens e jornadas à tua terra para ver a avó. “Pouca terra, pouca terra, hu hu”, trauteava em casa enquanto me agarrava à tua camisola e perseguia te pelas divisões do nosso lar. A mãe ria se, gostava de nos ver felizes, não invejava a nossa relação, sabia que o amor não se discute. E o nosso amor era único para mim, para nós certamente. As nossas viagens de comboio, todos os meses, a visitar a tua progenitora, momentos nossos. Durante três horas éramos só um do outro e era tudo. Por vezes adormecia com o movimento e davas me carícias na cabeça, entrava num sono profundo enquanto sorria. Dormir a sorrir, acho que nunca mais o fiz.

Hoje sorrio acordada ao fazer este trajeto, pela coragem finalmente conquistada. A avó já não está lá, nem tu cá para me acompanhar. Porém, as memórias não se desvanecem como as imagens que vejo passar pela janela desta carruagem.  “Muita terra, muita terra, hu hu”, foram muitas as nossas viagens e o silêncio da tua partida faz me lembrar como os anos passam. Gosto de encostar a face à janela e sentir o movimento do comboio, sinto o ar a passar por mim. Cheiro te, vens entranhado no vento.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Bocejo te

por Marta Marques
Quero bocejar, abrir a boca com toda a força, partir o maxilar. Saber que dei o máximo. Bocejar te pela espera, bocejar te pela frieza, bocejar te pela falta de humor. Quero que saibas o quanto bocejo por ti, o quanto te deito pela boca. 
Estás me nas entranhas, mergulhado como um vírus, árduo de matar. Pior. Cresces de dia para dia e bloqueias me o peito. Existe um bocejo preso. Tira me o ar. Culpa tua. Quero que o saibas e me libertes o bocejo, quero o expelir com um som estereofónico. Derrubar te os tímpanos. 
Quero ver te sangrar pelos canais auditivos até ficares despejado, vazio, caído. Quero bocejar a falta de toque, a ausência de olhares profundos, o suor seco dos nossos corpos em noites de desamor. Bocejar até me transformar num monstro. Uma aberração que te coma o cadáver e o esmigalhe. Quero bocejar a falta de mim em ti, a falta de mim em mim, a vontade de corar quando te vejo. És a sombra que escolhi teimosamente, o desejo falhado, a larva do meu ego. Deixa me bocejar te, carimbar te, tatuar te o meu hálito azedo. Quero o que não sei fazer, cerro os maxilares com tanta força. E os dentes rangem. A ousadia do desespero não me deixa bocejar. De mãos dadas passeamos num silencio barulhento. Mais simples cobrir os ouvidos do que bocejar. Mais fácil a escuridão, mais descomplicado cegar. Ver o par falhado é aceitar o nada. Bocejo te sem força, sem incentivo porém a fervilhar. Quero te dentro de mim com vida, alegre neste corpo como que numa segunda pele, uma proteção acolhedora. Quero te e fecho a boca para que não me fujas num bocejo. Quero bocejar flores frescas, vida, sorrisos de mel. Cede me um bocejo.