| por Marta Marques |
Velocidade, arrasto, percepções, ruído
repetido mas confortável, reflexo na janela, olhar hipnótico nas paisagens
estáticas que se mexem e desfazem como uma aguarela.
Sinto me como aquelas imagens,
desfaço me aos poucos e tento enganar me, fingir que as minhas memórias também
ficam para trás. Derretem se na rapidez, na ansia de andar para a frente.
Na carruagem revejo me numa criança
divertida com o pai e lembro me de ti, das nossas gargalhadas contagiantes, nos
olhos brilhantes, nos olhares carinhosos, no amor inquestionável. Também nós
andámos tantas vezes de comboio, viagens e jornadas à tua terra para ver a avó.
“Pouca terra, pouca terra, hu hu”, trauteava em casa enquanto me agarrava à tua
camisola e perseguia te pelas divisões do nosso lar. A mãe ria se, gostava de
nos ver felizes, não invejava a nossa relação, sabia que o amor não se discute.
E o nosso amor era único para mim, para nós certamente. As nossas viagens de
comboio, todos os meses, a visitar a tua progenitora, momentos nossos. Durante
três horas éramos só um do outro e era tudo. Por vezes adormecia com o
movimento e davas me carícias na cabeça, entrava num sono profundo enquanto
sorria. Dormir a sorrir, acho que nunca mais o fiz.
Hoje sorrio acordada ao fazer este
trajeto, pela coragem finalmente conquistada. A avó já não está lá, nem tu cá
para me acompanhar. Porém, as memórias não se desvanecem como as imagens que
vejo passar pela janela desta carruagem.
“Muita terra, muita terra, hu hu”, foram muitas as nossas viagens e o
silêncio da tua partida faz me lembrar como os anos passam. Gosto de encostar a
face à janela e sentir o movimento do comboio, sinto o ar a passar por mim.
Cheiro te, vens entranhado no vento.