Já passaram uns anos desde o último texto da Ovelha. Sou uma pessoa com uma essência consistente e genuína, o que assusta muitas pessoas 😂, mas mudo muito, muitas experiências, sempre a conhecer novos seres, áreas, ideias, aberta à informação útil, à verdade, aquela que me faz crescer como humana.
Não reli os textos que aqui escrevo desde 2009. Mas nem sei se irei ler. Agora será o momento que comanda. Obrigada por me apoiarem, por me criticarem de forma construtiva. Até já.
Mar
ovelha ronhosa da Escrita
Sou vegan ativista e realmente preocupada com o planeta. As inúmeras desilusões, deram me força. Já fui copy writer em publicidade, jornalista, voluntária em vários lugares, abri uma loja Vegan, algumas viagens que enriqueceram a alma, mts amores e desamores, sou uma apaixonada/romântica genuína. A escrita tem sofrido de bipolaridade na minha vida. Está me nas veias, mas por vezes entope pela falta de exercício. Sou mãe de 3 criaturas maravilhosas que me ajudaram a ganhar 1 sobriedade curtida.
quarta-feira, 22 de janeiro de 2020
terça-feira, 27 de dezembro de 2016
Perdeu se
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| por marta marques |
Inácio perdeu a mãe, perdeu a mulher que dizia ser a da sua
vida, perdeu o pai, perdeu a alegria, perdeu o amor próprio, perdeu o cão que o
acompanhava para tudo, perdeu o prazer pela vida, perdeu a vontade de comer,
perdeu as asas, perdeu o chão, perdeu o emprego, perdeu o sorriso, perdeu se.
Na casa onde viveu com os pais descobrem se baratas
exploradoras e procriadoras, cadeiras viradas, loiça maquilhada de comida seca,
ressequida e fétida. Ao cheiro a tabaco junta se um nevoeiro viciado e
misturado com álcool azedo. Lá fora, as árvores de frutos e as flores delicadas
inseridas na serenidade mudaram de cenário, deram espaço ao desmazelo, à seca,
ao desconforto.
Inácio perdeu e perdeu se no único lugar onde se encontrava
desde o primeiro dia em que respirou, sem culpa desfez se de memórias e apegos,
de choros, de exaustão. Apenas ainda estimava as estrelas. Exibidoras.
Descaradas. Espampanantes. Únicas, mesmo que inseridas num cardume lampejante.
Para Inácio o mar era o céu porque nunca testemunhou um oceano.
A noite sabia lhe a sal, a tempero, o aconchego que encontrava nos desgostos. Pressentia
que a lua suportava tudo o que não suportava e nela contava os suspiros de isolamento.
No escuro ganhava suporte. O seu lado negro patenteava se e conseguia sorrir
sem mover os lábios. A solidão, essa apenas se aguentava com as palavras que
ainda recordava. As mais fortes a do seu pai, palavras sábias quanto doces,
desde sempre melodiosas, verdadeiras e que abraçavam.
Abraços. Nunca pensou ser o sumo do vazio. Também os perdeu,
o sabor de corações que se tocam e se ouvem em segredo. A magia do abraço.
Hoje abraçava se a si mesmo enquanto saboreava o sal das
suas lágrimas secas.
quarta-feira, 21 de dezembro de 2016
Carta
Meu doce neto,
Quando leres esta carta não te lembrarás do meu rosto, do
meu cheiro, da minha voz, nem existirei nos teus pensamentos. Tens poucos meses
e eu também tenho poucos meses. Pedi à tua mãe que guardasse esta carta até
teres 15 anos.
Agora que me lês, espero te um adolescente saudável, feliz e
atestado de sonhos no coração. Gostava de ver te crescer, fazer te os bolos que
a tua mãe tanto gosta. Sei que irias gostar também. Gostava de ter ficado
contigo quando eras pequeno quando a tua mãe ia trabalhar. Rir, brincar,
passear no parque. Fazer te enjoar com os meus incontáveis beijos.
Não sei como é após morrer, se calhar neste momento estou a
apreciar te a leres a minha carta, se calhar já me transformei numa nova pessoa
que se cruza contigo sem te conhecer, se calhar sou um pássaro que vive no
campo feliz, se calhar sou apenas pó, se calhar nem interessa saber. O que sei
é que parti quando há pouco tinhas começado a viver, acho que esperei pelo teu
nascimento para o fazer. A doença apanhou me num repente e prometeu entregar me
à morte num instante. Mas lutei com ela, zanguei me e disse que tinha que
esperar. Esperou, vi te no dia que respiras te pela primeira vez, tive te nos braços,
sorri, beijei e entreguei te um bom pedaço deste coração fraco. Quis que o guardasses,
é um remédio de doçura para os momentos de tristeza ou revolta. Sim, com 15 anos já sabes, com
certeza, do que falo. Sei que ao me leres vais sentir o meu abraço. Ficou
guardado neste envelope até que fosse aberto por ti.
Apenas isto.
Por favor sê feliz.
Tua avó Aurora
domingo, 11 de dezembro de 2016
obsessão
Chegou à hora marcada. 3 minutos depois. Dia 3 às 3 e 33 da
tarde. Sessões assinaladas para os dias 3 de cada mês, às 3 e 30, a saber que
chegaria persistentemente às 3 e 33.
Nunca comentei. Era óbvio demais.
Terminávamos às 4 e 35, pois o total dos número, sendo doze,
era na realidade 1 e 2, igual a 3. Fazia questão de me dizer. “São 4 e 35,
tenho de ir”.
Desta vez contou, entusiasmada, ter conhecido o Sebastião,
um rapaz da sua idade, no dia 21, exatamente às 3 da manhã, quando bebia uns
copos com os amigos. Revelou que nessa noite dormiram juntos e no dia seguinte
eram 3 da tarde quando se separaram. Sebastião ligou lhe 3 dias depois e, desde
aí, assumiram o namoro. Estava apaixonada. Era a terceira vez na vida que se
apaixonava. “À terceira é de vez”, pronunciava o clichê enquanto sorria como há muito não o fazia. Sebastião vivia
em Campo de Ourique no número 3 e, verdade, no 3º andar. “Não é incrível?”.
Sim, acenava lhe com a cabeça e esboçava um sorriso.
Nas sessões falávamos de sentimentos, momentos, pensamentos,
mas nunca do 3. Como terapeuta já o devia ter feito. Porém sentia o 3 tão
privado que nunca o fiz. Se fosse para falar do 3 teria de ser ela. Em 33
sessões nunca o fez.
Ela até fazia 33 anos este ano. Fazer 33 anos em Março de
2001. 3 mais 3 e mais 3. Queria isto dizer alguma coisa? Não.
Para ela, tudo.
quarta-feira, 30 de novembro de 2016
Uma década
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| por marta marques |
Já não o via há mais de uma década quando despontou com o
dobro do tamanho, o dobro do charme e o dobro da maturidade. Não foi bom. Pensar
que perdi a hipótese de viver o amor com quem ia dobrar para melhor. Podiam ter
sido 10 anos de discussões, esforço, mas valeria a pena. Pensava eu, na galeria,
enquanto me babava pelos quadros expressivos e demolidores que ele, presentemente
artista, expunha. Olhei lhe as mãos, pareciam igualmente o dobro, fortes, unhas
à medida, pele com toques de tinta teimosa, com devaneios exuberantes, o que me
atrai. Os caracóis, também eles maiores, concebo os interlaçados nos meus dedos.
Camisa propositadamente amarrotada, aberta no botão certo, calças de cor neutra
favorecem lhe o rabo, sapatos confortáveis, olhos mais experientes e cansados
com o tal toque de amadurecido que me desarma. Já eu não dobrei em nada. Sempre
fui inteligente, bonita e madura, agora apenas estou mais velha, com menos
humor, mais desencantada. Ele descobriu me. Convidou me para a sua exposição.
Há 10 anos não havia mancha nas suas pinturas que me parecesse promissora, digna.
Achava o um fracasso, um homem sem tempero, sem ambição. Sem apeteceres
maiores, sem lutas internas. Agora sentia me uma genuína parva por não ter interceptado
o seu potencial. Convidou me, obviamente, a fim de chutar na minha arrogância. Educado,
recebeu me com um olhar de quem vê, sorriso firme, sem troça.
Sem atitude, agarro me ao espumante. Aprecio as telas e, de
soslaio, a ele. Imagino nos juntos agora. Duas pessoas que se reencontram no
amor dez anos depois. Chega uma mulher com o dobro do meu brilho, uma mulher
sorridente. Dirige se a ele. Um abraço, um beijo apaixonado. Finjo não me
importar.
Saio da galeria de lágrima rasteira. Coração dobrado ao
meio.
quinta-feira, 24 de novembro de 2016
Final feliz
Mais um final feliz, testemunho de paz, resolução, conforto. Fechar os olhos, esboçar um sorriso. Pegar no livro como uma peça sumptuosa e pousá locuidadosamente na prateleira. “Grata”. Agradece a mais um livro. Todos os dias é assim. Passar na livraria, ficar contiguamente duas horas a ler finais de livros, últimos capitulo, desfechos. É viciada em finais felizes, transmuta se nas personagens e vive a alegria daquelas últimas palavras, frases, composições de letras embrulhadas em mais letras que, magicamente,desvendam imagens poderosas. Jura sentir o cheiro, apreciar os sons, saborear os pequenos gemidos de um livro. Há vezes que tomba em finais negros, não choramas fica desmoronada. Resolve se a, desprendida, arrumar o livro e procurar outro de cara alegre, de titulo positivo. Detém a certeza que finalizará bem.
Às vezes é um embuste. Refugia se nas centenas dosoutros livros. Vinga se dos momentos dramáticos. Sempre foi adicta de algo, em rebuçados para a tosse, em balões de pastilhas elásticas, em cigarros com sabor, em construção de origamis, em mastigar cola, em seguir pessoas e saber coisas delas sem elas alguma vez desconfiarem. Teve muitos mais vícios. Há três anos e meio é viciada em livrarias, em últimos capítulos bem-aventurados. Um hábito diário.
Hoje é mais um desses dias, lá fora os cachecóis, os gorros e os casacos gordos prosperam. Dentro há quentura, há histórias, há viagens. Isaura está sentada nocadeirão preferido. Há uns seis meses que tem o ninho nesta livraria. Os empregados já a conhecem, sabem ser a agarrada dos “Fim’s. É respeitada. Quando gosta demasiado de um final compra o livro. Em casa recorta o ultimo capitulo e arquiva o num dossier. Corrompida porfinais risonhos, Isaura é feliz.
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