quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Carta

Meu doce neto,
Quando leres esta carta não te lembrarás do meu rosto, do meu cheiro, da minha voz, nem existirei nos teus pensamentos. Tens poucos meses e eu também tenho poucos meses. Pedi à tua mãe que guardasse esta carta até teres 15 anos.

Agora que me lês, espero te um adolescente saudável, feliz e atestado de sonhos no coração. Gostava de ver te crescer, fazer te os bolos que a tua mãe tanto gosta. Sei que irias gostar também. Gostava de ter ficado contigo quando eras pequeno quando a tua mãe ia trabalhar. Rir, brincar, passear no parque. Fazer te enjoar com os meus incontáveis beijos.
Não sei como é após morrer, se calhar neste momento estou a apreciar te a leres a minha carta, se calhar já me transformei numa nova pessoa que se cruza contigo sem te conhecer, se calhar sou um pássaro que vive no campo feliz, se calhar sou apenas pó, se calhar nem interessa saber. O que sei é que parti quando há pouco tinhas começado a viver, acho que esperei pelo teu nascimento para o fazer. A doença apanhou me num repente e prometeu entregar me à morte num instante. Mas lutei com ela, zanguei me e disse que tinha que esperar. Esperou, vi te no dia que respiras te pela primeira vez, tive te nos braços, sorri, beijei e entreguei te um bom pedaço deste coração fraco. Quis que o guardasses, é um remédio de doçura para os momentos de tristeza ou  revolta. Sim, com 15 anos já sabes, com certeza, do que falo. Sei que ao me leres vais sentir o meu abraço. Ficou guardado neste envelope até que fosse aberto por ti.

Apenas isto.
Por favor sê feliz.

Tua avó Aurora