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| por marta marques |
Queria tocar lhe com o olhar.
Durante meses permutaram mensagens de entendimento, por
algum motivo sabia que as conversas não tinham sido mentira. Gostava da forma
como ele se entregava nas palavras, palavras escritas sem erros e na medida
certa. A escrita também a fascinava. Um homem que tempera a escrita persuadia. Se
ousa aplicar diminutivos, retalha palavras ou utiliza palavras púberes perde
lhe a piada. Para ela era assim. Fulcral. Já tinha experimentado muito, era
exigente. Não por teimosia ou crenças desatinadas, sabia querer prazer e de
onde alimentar se, esse era a único tema.
Visualmente sabia qual a sua figura, cabelo nem muito curto
nem comprido, ondulado e bravio, olhos grandes mel de pestanas extensas, lábios
densos, barba fina e clara desenhada numa face de ossos generosos. Robusto,
ombros fortes e peito cheio, lembrava-se dessa imagem. Agora era homem e isso agitava
a.
O encontro sem expectativa ocorreu nessa noite. Uma porta
aberta, uma casa de luminosidade recatada, vista rio, música, uma simples vela a
iluminar uma garrafa de vinho e dois copos límpidos. Há clichés que funcionam
na perfeição, clichés que de tanto serem pescados, simplesmente resultam.
Ouviu lhe a voz e aprovou, sorriu por esta ser uma
expectativa importante.
Tragaram vinho em silencio a encarar a água que disfarça a cidade suja, a lua ainda não estava redonda, talvez amanhã estivesse. Sentiu
a língua a encher lhe a boca sequiosa, adivinhou lhe o paladar, o sabor a vinho
misturado, era delicado, sabia tatear. Experimentou lhe a boca e gostou,
tanto que os olhos fecharam tal uma cortina no final de uma peça. Roçaram os lábios como fizessem parte um do outro. As mãos dele sentiram o corpo dela e
surgiu aquele arrepio interior de conexão química, respiração espertada, os beijos
ampliaram se, os corpos dançaram como as ondas que aquele rio desejava. No chão
entregaram se, rebolaram, riram e fundiram-se. O encaixe irrepreensível, ela
sentiu se preenchida por ele, ele sentiu se abraçado por ela. É caso raro as
partes íntimas vestirem o mesmo número. Por momentos nem se mexeram, apenas
usufruíram do encasamento e olharam se, ele falou e disse as palavras certas,
ela sorriu com o sorriso perfeito e navegaram naquele rio sem medo, sem
restrições, sem máscaras.
Durou o tempo sem tempo e foram tão longe quanto existe de
longe. Deixaram se cair abraçados no cansaço e aqueceram os corpos despidos com
a veemência germinada.
