segunda-feira, 25 de maio de 2015

(re) Nasce uma Mulher

por marta marques


Nem a voz conhecera lhe ainda, sabia o quanto o som era influente nestas ocorrências. Vozes agudas não vibravam na sua energia, vozes adocicadas de reclamação snobe não a estimulavam, vozes sem alma e vigor faziam na lembrar os tempos de droga que só queria esquecer, extinguir, vozes carguejadas pelas narinas davam lhe alergia, como unho grudado ao corpo. Sabia como a voz era importante, ou então não voz. Estar com quem só fala pelo olhar e pelas mãos também valia, melhor do que o arsenal de vozes sem bateria para um momento de entrelace. Uma voz segura, grave, masculina com o tempo certo entre palavras, de pronuncia certa e paragens inteligentes fazia a história. Contudo não lhe conhecia a sua, imaginava a.

Queria tocar lhe com o olhar.

Durante meses permutaram mensagens de entendimento, por algum motivo sabia que as conversas não tinham sido mentira. Gostava da forma como ele se entregava nas palavras, palavras escritas sem erros e na medida certa. A escrita também a fascinava. Um homem que tempera a escrita persuadia. Se ousa aplicar diminutivos, retalha palavras ou utiliza palavras púberes perde lhe a piada. Para ela era assim. Fulcral. Já tinha experimentado muito, era exigente. Não por teimosia ou crenças desatinadas, sabia querer prazer e de onde alimentar se, esse era a único tema.
Visualmente sabia qual a sua figura, cabelo nem muito curto nem comprido, ondulado e bravio, olhos grandes mel de pestanas extensas, lábios densos, barba fina e clara desenhada numa face de ossos generosos. Robusto, ombros fortes e peito cheio, lembrava-se dessa imagem. Agora era homem e isso agitava a.
O encontro sem expectativa ocorreu nessa noite. Uma porta aberta, uma casa de luminosidade recatada, vista rio, música, uma simples vela a iluminar uma garrafa de vinho e dois copos límpidos. Há clichés que funcionam na perfeição, clichés que de tanto serem pescados, simplesmente resultam.

Ouviu lhe a voz e aprovou, sorriu por esta ser uma expectativa importante.

Tragaram vinho em silencio a encarar a água que disfarça a cidade suja, a lua ainda não estava redonda, talvez amanhã estivesse. Sentiu a língua a encher lhe a boca sequiosa, adivinhou lhe o paladar, o sabor a vinho misturado, era delicado, sabia tatear. Experimentou lhe a boca e gostou, tanto que os olhos fecharam tal uma cortina no final de uma peça. Roçaram os lábios como fizessem parte um do outro. As mãos dele sentiram o corpo dela e surgiu aquele arrepio interior de conexão química, respiração espertada, os beijos ampliaram se, os corpos dançaram como as ondas que aquele rio desejava. No chão entregaram se, rebolaram, riram e fundiram-se. O encaixe irrepreensível, ela sentiu se preenchida por ele, ele sentiu se abraçado por ela. É caso raro as partes íntimas vestirem o mesmo número. Por momentos nem se mexeram, apenas usufruíram do encasamento e olharam se, ele falou e disse as palavras certas, ela sorriu com o sorriso perfeito e navegaram naquele rio sem medo, sem restrições, sem máscaras.


Durou o tempo sem tempo e foram tão longe quanto existe de longe. Deixaram se cair abraçados no cansaço e aqueceram os corpos despidos com a veemência germinada.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Buraco Negro

por marta marques

Por mais que tente, que esteja atenta e provoque o desatento, continuo no limbo, no buraco negro. Desconfio da existência de quem saiba o que é e como sair dele, mas não lhe convém revelar tal gáudio, talvez por a luz ser o maior tesouro de todos e os Homens se matarem por opulências. Sem dúvida, esta é uma verdadeira fortuna, dá clareza, dá vida e, o seu maior poder, dá paz. É por este trunfo que estranho a luta das Criaturas pois nunca antes lutaram pela paz, sim pela desgraça e tristeza. Desconfio que escondem o segredo do buraco negro por outros motivos. Quando um indivíduo afunda-se no buraco negro dão a mão, porém é esta a ajuda que nos deixa na orla, andamos a vaguear como cães vadios à procura de um canto, de um espaço neste planeta que nos deixe mais tranquilos. Já escorreguei umas quantas vezes no buraco negro e consegui sair, sempre com ratoeiras e esquemas prazenteiros, deixaram-me com pedras nos bolsos.

Tantas pedras, pesadas, sujas.

Há dias tropecei de novo no buraco negro e descobri um pouco mais acerca da escuridão, os bolsos rasguei-os para ficar mais leve, não resultou, as costuras estão demasiado bem controladas, nem uma rocha se atreveria a rasgá-las. Enfrentei aquela boca sem vida e desejei desligar o som do meu coração.

O cenário suponho que tudo seja menos um cenário pois a cenários estamos nós habituados, carregado de aroma húmido e nauseativo, som patológico, zumbidos baixos e imperceptíveis dão alimento a uma ansiedade antropófaga, imagens misturadas onde se destacam insectos rastejantes e madeiras apodrecidas, bolor, rires falsos. A pele, lasca pelas paredes ásperas mas não sente dor, não nutre nada, tem excesso de energia, vive um formigueiro latente, parece estar em chamas mas sem queimar, o coração está cansado mas agitado, tem medo, tanto, está inflamado. A cabeça é uma batalha, caçou tanta informação, tanta emoção, agora brinca tal uma criança energúmena e salta de monte em monte, desarruma tudo o que tanto trabalho deu a compor. O buraco negro é uma máquina de tortura mental, experimenta quem mais se abre para o Sol, para o mar, para os seres vivos, quem recusa colagens com crenças, personagens criadas e amores banais, é uma máquina feita à medida dos mais sensíveis e tem toques de malvadez esmerados.