| por marta marques |
Tantas pedras, pesadas, sujas.
Há dias tropecei de novo no buraco negro e descobri um pouco
mais acerca da escuridão, os bolsos rasguei-os para ficar mais leve, não
resultou, as costuras estão demasiado bem controladas, nem uma rocha se
atreveria a rasgá-las. Enfrentei aquela boca sem vida e desejei desligar o som
do meu coração.
O cenário suponho que tudo seja menos um cenário pois a
cenários estamos nós habituados, carregado de aroma húmido e nauseativo, som patológico,
zumbidos baixos e imperceptíveis dão alimento a uma ansiedade antropófaga,
imagens misturadas onde se destacam insectos rastejantes e madeiras apodrecidas,
bolor, rires falsos. A pele, lasca pelas paredes ásperas mas não sente dor, não
nutre nada, tem excesso de energia, vive um formigueiro latente, parece estar
em chamas mas sem queimar, o coração está cansado mas agitado, tem medo, tanto,
está inflamado. A cabeça é uma batalha, caçou tanta informação, tanta emoção,
agora brinca tal uma criança energúmena e salta de monte em monte, desarruma
tudo o que tanto trabalho deu a compor. O buraco negro é uma máquina de tortura
mental, experimenta quem mais se abre para o Sol, para o mar, para os seres
vivos, quem recusa colagens com crenças, personagens criadas e amores banais, é
uma máquina feita à medida dos mais sensíveis e tem toques de malvadez esmerados.