quarta-feira, 6 de maio de 2015

Buraco Negro

por marta marques

Por mais que tente, que esteja atenta e provoque o desatento, continuo no limbo, no buraco negro. Desconfio da existência de quem saiba o que é e como sair dele, mas não lhe convém revelar tal gáudio, talvez por a luz ser o maior tesouro de todos e os Homens se matarem por opulências. Sem dúvida, esta é uma verdadeira fortuna, dá clareza, dá vida e, o seu maior poder, dá paz. É por este trunfo que estranho a luta das Criaturas pois nunca antes lutaram pela paz, sim pela desgraça e tristeza. Desconfio que escondem o segredo do buraco negro por outros motivos. Quando um indivíduo afunda-se no buraco negro dão a mão, porém é esta a ajuda que nos deixa na orla, andamos a vaguear como cães vadios à procura de um canto, de um espaço neste planeta que nos deixe mais tranquilos. Já escorreguei umas quantas vezes no buraco negro e consegui sair, sempre com ratoeiras e esquemas prazenteiros, deixaram-me com pedras nos bolsos.

Tantas pedras, pesadas, sujas.

Há dias tropecei de novo no buraco negro e descobri um pouco mais acerca da escuridão, os bolsos rasguei-os para ficar mais leve, não resultou, as costuras estão demasiado bem controladas, nem uma rocha se atreveria a rasgá-las. Enfrentei aquela boca sem vida e desejei desligar o som do meu coração.

O cenário suponho que tudo seja menos um cenário pois a cenários estamos nós habituados, carregado de aroma húmido e nauseativo, som patológico, zumbidos baixos e imperceptíveis dão alimento a uma ansiedade antropófaga, imagens misturadas onde se destacam insectos rastejantes e madeiras apodrecidas, bolor, rires falsos. A pele, lasca pelas paredes ásperas mas não sente dor, não nutre nada, tem excesso de energia, vive um formigueiro latente, parece estar em chamas mas sem queimar, o coração está cansado mas agitado, tem medo, tanto, está inflamado. A cabeça é uma batalha, caçou tanta informação, tanta emoção, agora brinca tal uma criança energúmena e salta de monte em monte, desarruma tudo o que tanto trabalho deu a compor. O buraco negro é uma máquina de tortura mental, experimenta quem mais se abre para o Sol, para o mar, para os seres vivos, quem recusa colagens com crenças, personagens criadas e amores banais, é uma máquina feita à medida dos mais sensíveis e tem toques de malvadez esmerados.