| por marta marques |
Pequena, magra a defecar para o frágil, estreita, certeza
de órgãos pequenos, pequenos ou esmigalhados de tanto estrangulamento, tão
curto espaço, veias fortes, salientes e escuras, borradas de sangue vivo, testemunho
de intensidade, tanta que corrói, a convicção de ser comida, comida por dentro,
por um ácido cáustico, devastador. Porque ter vida é ter motivos para ser comido,
porque ser atento é a fatalidade, a metamorfose instantânea para a formação da
presa, a presa da sociedade apática, a sociedade que julga respirar, comunidade
que não sente a máscara que usa, tão bem anexada, fundida que está, considera
fazer parte, nem sente o peso, o peso tal uma manta num dia arrefecido,
conforta e aquece, engana e manipula o frio. Cadáver, mulher de corpo franzino
e olhos fundos, de dar arrepios e sentir repulsa, contudo a mulher de coração
usado e veios reais sabe o significado da paixão vezes sem conta e como a
viver em todos os graus. Já experimentara a subida das escadas para as estrelas
tantas vezes, uma verdadeira campeã da maratona da entrega, da respiração
profunda, da mente sintonizada com o tempo. Como qualquer recordista tombou
tantas vezes, tantas, as suficientes para outro qualquer humano de máscara não
se atrever a pisar as mesmas escadas, todavia a mulher de ossos salientes transpira
e solta gotas de ambição, de querer, de vida. Possuidora de lágrimas salgadas,
sabor de quem vive intensamente, quão
mar devora a terra e arrisca toca la com a força da essência produzida. A
mulher de olhar parado ainda sente a bandeira enraizada no seu ponto de luz, no
âmago da sua alma. A mulher que prefere a falta de ar ao ar envenenado das mascarilhas
dos semelhantes, volta a subir os degraus, não com o mesmo vigor, arrasta se,
obstinada no caminho para os asteriscos, caminhadas lentas mas de honestidade.
A mulher de ossos partidos tem o corpo atingido de dor, não sabe mais como
respirar sem sofrimento, porém prefere o oxigénio da realidade, opta pela nudez,
mesmo vestida de um corpo de medo, porque o pânico é de quem vê, escuta, sabe.
A mulher de tristeza vincada nas rugas escavadas na pele está cansada mas
continua a subir as escadas rijas de sentido aos astros.