sábado, 22 de agosto de 2015

Caminhada

por marta marques



Pequena, magra a defecar para o frágil, estreita, certeza de órgãos pequenos, pequenos ou esmigalhados de tanto estrangulamento, tão curto espaço, veias fortes, salientes e escuras, borradas de sangue vivo, testemunho de intensidade, tanta que corrói, a convicção de ser comida, comida por dentro, por um ácido cáustico, devastador. Porque ter vida é ter motivos para ser comido, porque ser atento é a fatalidade, a metamorfose instantânea para a formação da presa, a presa da sociedade apática, a sociedade que julga respirar, comunidade que não sente a máscara que usa, tão bem anexada, fundida que está, considera fazer parte, nem sente o peso, o peso tal uma manta num dia arrefecido, conforta e aquece, engana e manipula o frio. Cadáver, mulher de corpo franzino e olhos fundos, de dar arrepios e sentir repulsa, contudo a mulher de coração usado e veios reais sabe o significado da paixão vezes sem conta e como a viver em todos os graus. Já experimentara a subida das escadas para as estrelas tantas vezes, uma verdadeira campeã da maratona da entrega, da respiração profunda, da mente sintonizada com o tempo. Como qualquer recordista tombou tantas vezes, tantas, as suficientes para outro qualquer humano de máscara não se atrever a pisar as mesmas escadas, todavia a mulher de ossos salientes transpira e solta gotas de ambição, de querer, de vida. Possuidora de lágrimas salgadas, sabor de  quem vive intensamente, quão mar devora a terra e arrisca toca la com a força da essência produzida. A mulher de olhar parado ainda sente a bandeira enraizada no seu ponto de luz, no âmago da sua alma. A mulher que prefere a falta de ar ao ar envenenado das mascarilhas dos semelhantes, volta a subir os degraus, não com o mesmo vigor, arrasta se, obstinada no caminho para os asteriscos, caminhadas lentas mas de honestidade. A mulher de ossos partidos tem o corpo atingido de dor, não sabe mais como respirar sem sofrimento, porém prefere o oxigénio da realidade, opta pela nudez, mesmo vestida de um corpo de medo, porque o pânico é de quem vê, escuta, sabe. A mulher de tristeza vincada nas rugas escavadas na pele está cansada mas continua a subir as escadas rijas de sentido aos astros.