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| por marta marques |
Inácio perdeu a mãe, perdeu a mulher que dizia ser a da sua
vida, perdeu o pai, perdeu a alegria, perdeu o amor próprio, perdeu o cão que o
acompanhava para tudo, perdeu o prazer pela vida, perdeu a vontade de comer,
perdeu as asas, perdeu o chão, perdeu o emprego, perdeu o sorriso, perdeu se.
Na casa onde viveu com os pais descobrem se baratas
exploradoras e procriadoras, cadeiras viradas, loiça maquilhada de comida seca,
ressequida e fétida. Ao cheiro a tabaco junta se um nevoeiro viciado e
misturado com álcool azedo. Lá fora, as árvores de frutos e as flores delicadas
inseridas na serenidade mudaram de cenário, deram espaço ao desmazelo, à seca,
ao desconforto.
Inácio perdeu e perdeu se no único lugar onde se encontrava
desde o primeiro dia em que respirou, sem culpa desfez se de memórias e apegos,
de choros, de exaustão. Apenas ainda estimava as estrelas. Exibidoras.
Descaradas. Espampanantes. Únicas, mesmo que inseridas num cardume lampejante.
Para Inácio o mar era o céu porque nunca testemunhou um oceano.
A noite sabia lhe a sal, a tempero, o aconchego que encontrava nos desgostos. Pressentia
que a lua suportava tudo o que não suportava e nela contava os suspiros de isolamento.
No escuro ganhava suporte. O seu lado negro patenteava se e conseguia sorrir
sem mover os lábios. A solidão, essa apenas se aguentava com as palavras que
ainda recordava. As mais fortes a do seu pai, palavras sábias quanto doces,
desde sempre melodiosas, verdadeiras e que abraçavam.
Abraços. Nunca pensou ser o sumo do vazio. Também os perdeu,
o sabor de corações que se tocam e se ouvem em segredo. A magia do abraço.
Hoje abraçava se a si mesmo enquanto saboreava o sal das
suas lágrimas secas.


