quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Uma década

por marta marques
Já não o via há mais de uma década quando despontou com o dobro do tamanho, o dobro do charme e o dobro da maturidade. Não foi bom. Pensar que perdi a hipótese de viver o amor com quem ia dobrar para melhor. Podiam ter sido 10 anos de discussões, esforço, mas valeria a pena. Pensava eu, na galeria, enquanto me babava pelos quadros expressivos e demolidores que ele, presentemente artista, expunha. Olhei lhe as mãos, pareciam igualmente o dobro, fortes, unhas à medida, pele com toques de tinta teimosa, com devaneios exuberantes, o que me atrai. Os caracóis, também eles maiores, concebo os interlaçados nos meus dedos. Camisa propositadamente amarrotada, aberta no botão certo, calças de cor neutra favorecem lhe o rabo, sapatos confortáveis, olhos mais experientes e cansados com o tal toque de amadurecido que me desarma. Já eu não dobrei em nada. Sempre fui inteligente, bonita e madura, agora apenas estou mais velha, com menos humor, mais desencantada. Ele descobriu me. Convidou me para a sua exposição. Há 10 anos não havia mancha nas suas pinturas que me parecesse promissora, digna. Achava o um fracasso, um homem sem tempero, sem ambição. Sem apeteceres maiores, sem lutas internas. Agora sentia me uma genuína parva por não ter interceptado o seu potencial. Convidou me, obviamente, a fim de chutar na minha arrogância. Educado, recebeu me com um olhar de quem vê, sorriso firme, sem troça.
Sem atitude, agarro me ao espumante. Aprecio as telas e, de soslaio, a ele. Imagino nos juntos agora. Duas pessoas que se reencontram no amor dez anos depois. Chega uma mulher com o dobro do meu brilho, uma mulher sorridente. Dirige se a ele. Um abraço, um beijo apaixonado. Finjo não me importar.

Saio da galeria de lágrima rasteira. Coração dobrado ao meio.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Final feliz

Mais um final feliz, testemunho de paz, resolução, conforto. Fechar os olhos, esboçar um sorriso. Pegar no livro como uma peça sumptuosa e pousá locuidadosamente na prateleira. “Grata. Agradece mais um livro. Todos os dias é assim. Passar na livraria, ficar contiguamente duas horas a ler finais de livros, últimos capitulo, desfechos. É viciada em finais felizes, transmuta se nas personagens e vive a alegria daquelas últimas palavras, frases, composições de letras embrulhadas em mais letras que, magicamente,desvendam imagens poderosasJura sentir o cheiro, apreciar os sons, saborear os pequenos gemidos de um livro. Há vezes que tomba em finais negros, não choramas fica desmoronadaResolve se a, desprendidaarrumar o livro e procurar outro de cara alegre, de titulo positivo. Detém a certeza que finalizará bem. 
Às vezes é um embusteRefugia se nas centenas dosoutros livros. Vinga se dos momentos dramáticos. Sempre foi adicta de algo, em rebuçados para a tosse, em balões de pastilhas elásticas, em cigarros com sabor, em construção de origamis, em mastigar cola, em seguir pessoas e saber coisas delas sem elas alguma vez desconfiarem. Teve muitos mais vícios. Há três anos e meio é viciada em livrarias, em últimos capítulos bem-aventuradosUm hábito diário.
Hoje é mais um desses dias, lá fora os cachecóis, os gorros e os casacos gordos prosperam. Dentro há quentura, há histórias, há viagens. Isaura está sentada nocadeirão preferido. Há uns seis meses que tem o ninho nesta livraria. Os empregados já a conhecem, sabem ser a agarrada dos “Fim’sÉ respeitada. Quando gosta demasiado de um final compra o livro. Em casa recorta o ultimo capitulo e arquiva o num dossierCorrompida porfinais risonhos, Isaura é feliz.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

última vez


por marta marques
Mais uma vez, talvez a última, creio que a última, te espero. Sentado na mesma cadeira de perna coxa, pele gasta e em tons de saudosismo, sempre junto à janela que olha para a rua onde passas. Por entre gente distingues te pela testa larga, os olhos de formato de sorriso ao contrário e os lábios desenhados e tão naturais que cheiram a fruta fresca por nunca terem transportado um batom, a tua forma de caminhar serena quanto apressada, equilibrada de mochila às costas, cabelo solto, bravio, porém ajustado, caído nos ombros como se de uma pintura se tratasse, uma aguarela diluída nas cores exatas, luminosa. Inadmissível não sobressaíres no meio dos robôs da cidade, bando de cara escura e sem rosto, bando em tom de marcha, intocável e deprimido. Também eu deprimido, triste talvez. Cansado será a palavra certa. Sentado sonho no dia em que foste minha. Não no sentido de me pertenceres de te materializar, minha por estares dentro de mim e eu dentro de ti, fundidos em emoções que exprimimos sem medos e sem nos reprimirem o coração. Dizia eu, supunha que eras minha, ridículo que sou. Nunca o foste, nunca o serás. Apenas minha em ambição, minha no pensamento, pensamento corrosivo que me destruiu nestes anos. A minha cabeça desfeita, como se fosses um ácido. De início apenas triturava e num instante matou me o raciocínio, tirou me a paz, as gargalhadas e o choro, deixou me anestesiado. Mais uma vez, prevejo pela última vez, espero te de mãos enroladas pousadas na mesa junto das chávenas de café borradas. Mãos enrugadas e manchadas, ásperas do frio e do desmazelo que trago no coração. Mais uma vez, espero te junto do vidro embaciado e ainda com alguma ansia. Porém, garanto te, pela última vez.

Farsa

por marta marques
Ela era bela, de corpo fluorescente, encadeava todos com tanta formosura, o realce estético  tão grandioso exigia um trabalho árduo  para estar a altura dos  elogios. Horas dedicada ao espelho, pentear os cabelos longos, perfumes adequados à estação, roupa encaixada nas ancas modeladas, decote de babar qualquer homem mas
de quem sabe ser elegantemente inteligente. Depois  a criança, órfão da vida, aterrada naquele casal, por ali ficou por serem os únicos que lhe davam algo, mesmo que nada fosse. Chamava se Cristóvão, de cabelo encaracolado e amarelo, contrastava com a pele escura e os olhos cor de carvão. Na rua, quando acompanhado pela bela, evidenciavam se do resto dos mortais. Eram claramente duas personagens de fazer inveja, dignas de suspiros.
Faltava ele, tão raro quanto palhaço, insistia em conversas com intuito de graça mas decadentemente tolas. Pior, julgava ter  piada. Era companheiro da bela  porque tinha dinheiro  para as suas compras, para esta não perder o estatuto de diva, servia para pai da criança porque não entendia o quão indiferente esta era, o grau de frieza  que já carregava. A bela, a criança e o palhaço eram já uma história conhecida naquelas bandas, todos sabiam ser  uma farsa porém todos os  invejavam.

A criança um dia cresceu e não suportou ver a mãe velha e com rugas pois  já não era bela e sim a mais deprimida. Chorava tanto que agora era a mulher de olhos mais inchados daquela terra. O palhaço transformou  se  num sisudo cansado de tanta palhaçada e já não fazia piadas porém drama de tudo o que realmente tinha piada. A criança que já não era criança fugiu para se (re)tornar num órfão da vida e num matador de famílias felizes. E assim o trio já  não mais  fingiu  ser uma maquilhagem borrada.