quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Farsa

por marta marques
Ela era bela, de corpo fluorescente, encadeava todos com tanta formosura, o realce estético  tão grandioso exigia um trabalho árduo  para estar a altura dos  elogios. Horas dedicada ao espelho, pentear os cabelos longos, perfumes adequados à estação, roupa encaixada nas ancas modeladas, decote de babar qualquer homem mas
de quem sabe ser elegantemente inteligente. Depois  a criança, órfão da vida, aterrada naquele casal, por ali ficou por serem os únicos que lhe davam algo, mesmo que nada fosse. Chamava se Cristóvão, de cabelo encaracolado e amarelo, contrastava com a pele escura e os olhos cor de carvão. Na rua, quando acompanhado pela bela, evidenciavam se do resto dos mortais. Eram claramente duas personagens de fazer inveja, dignas de suspiros.
Faltava ele, tão raro quanto palhaço, insistia em conversas com intuito de graça mas decadentemente tolas. Pior, julgava ter  piada. Era companheiro da bela  porque tinha dinheiro  para as suas compras, para esta não perder o estatuto de diva, servia para pai da criança porque não entendia o quão indiferente esta era, o grau de frieza  que já carregava. A bela, a criança e o palhaço eram já uma história conhecida naquelas bandas, todos sabiam ser  uma farsa porém todos os  invejavam.

A criança um dia cresceu e não suportou ver a mãe velha e com rugas pois  já não era bela e sim a mais deprimida. Chorava tanto que agora era a mulher de olhos mais inchados daquela terra. O palhaço transformou  se  num sisudo cansado de tanta palhaçada e já não fazia piadas porém drama de tudo o que realmente tinha piada. A criança que já não era criança fugiu para se (re)tornar num órfão da vida e num matador de famílias felizes. E assim o trio já  não mais  fingiu  ser uma maquilhagem borrada.