| por marta marques |
Ela era bela, de corpo fluorescente, encadeava todos com
tanta formosura, o realce estético tão
grandioso exigia um trabalho árduo para estar
a altura dos elogios. Horas dedicada ao
espelho, pentear os cabelos longos, perfumes adequados à estação, roupa encaixada
nas ancas modeladas, decote de babar qualquer homem mas
de quem sabe ser elegantemente inteligente. Depois a criança, órfão da vida, aterrada naquele
casal, por ali ficou por serem os únicos que lhe davam algo, mesmo que nada
fosse. Chamava se Cristóvão, de cabelo encaracolado e amarelo, contrastava com
a pele escura e os olhos cor de carvão. Na rua, quando acompanhado pela bela, evidenciavam
se do resto dos mortais. Eram claramente duas personagens de fazer inveja,
dignas de suspiros.
Faltava ele, tão raro quanto palhaço, insistia em conversas
com intuito de graça mas decadentemente tolas. Pior, julgava ter piada. Era companheiro da bela porque tinha dinheiro para as suas compras, para esta não perder o estatuto
de diva, servia para pai da criança porque não entendia o quão indiferente esta
era, o grau de frieza que já carregava.
A bela, a criança e o palhaço eram já uma história conhecida naquelas bandas,
todos sabiam ser uma farsa porém todos
os invejavam.
A criança um dia cresceu e não suportou ver a mãe velha e com
rugas pois já não era bela e sim a mais
deprimida. Chorava tanto que agora era a mulher de olhos mais inchados daquela
terra. O palhaço transformou se num sisudo cansado de tanta palhaçada e já não
fazia piadas porém drama de tudo o que realmente tinha piada. A criança que já
não era criança fugiu para se (re)tornar num órfão da vida e num matador de famílias
felizes. E assim o trio já não mais fingiu ser uma maquilhagem borrada.