segunda-feira, 28 de julho de 2014

Fugitiva

por marta marques
Barba não demasiado grande
cortada em modo de falta de jeito ou moquenquice
atulhada de fendas fluorescentes
uma face marcada por mordidas do tempo.
Amedrontado com o mundo
nunca o aceitou
ou este não o aceita a ele
caminha trémulo e a cada passo temo que caia.
Vira sem dificuldade a cara de um lado para o outro
a um ritmo alucinado
provoca-me ansiedade.
Veste camisas por cima de camisas
de botões trocados sem pretensões
apenas prova de desleixo
desencaixe.
Calça uns números acima da sua realidade
não me choca no meio de tanto alheamento.
Está um dia não muito frio de início de primavera
sem chuva
um Sol descarado.
Também ele é descarado
não atrevido.
Descarado pois não têm cara
não possui cartão de cidadão
não há impressão digital registada
nem faz parte do esquema.
É um fora
um sem abrigo
um desajustado.
De alguma forma é o meu espelho
Desajustado.
As calças a única peça que faz clique com a personagem
não demasiado largas
nem estreitas
nem compridas ou curtas
muito menos limpas.
As mãos declamam unhas encardidas
pretas
de uma secura denunciadora das noites passadas ao frio. Apressado
dirige-se na direção do meu carro
cada vez mais perto.
Observadora silenciosa
espero que siga
Todavia não.
No meio de tantos carros
imobiliza à minha frente
examina
como uma coruja
os olhos são baços como de um peixe podre
sinto-lhe o fedor
mesmo fechada na viatura.
Abre a braguilha
demasiado rápido
expõe o seu pénis mirrado
doente e sujo
O meu coração acelera de forma pouco provável
são poucos os segundos para uma reação.
Parece querer urinar mas não consegue
tem dores
aflição
precisa de o fazer e escolhe o meu carro
Escolhe-me a mim.
Tudo se passa em menos de um minuto
parece dias
Não sou capaz de mais
Faço marcha atrás e fujo
realmente fujo
fujo daquele buraco
juro não mais estacionar ali
Não o olho
não sei se me viu
se já me tinha visto
se ficou envergonhado
irritado
não sei o que pensa
Se pensa
Facilmente chorei
Com vómitos pela decadência
por aquele pessoa
por mim
pelo sistema.
As lágrimas
essas
aproveitaram e lavaram outros lugares escondidos

refugiados na memória.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Expectativas

por marta marques

“Foram felizes para sempre”. Foi o que idealizei quando o conheci. Ouvi o clichê dos contos das princesas e agarrei-me a ele. Imaginei-nos como casal comunicante, parelha que se admira, beneficiários de cumplicidade. Difícil não cair neste desejo quando tudo flui, conversas de gostos iguais, valores semelhantes, sonhos a dois. Sexo químico, união de peles, arrepios na espinha, cheiros que se misturam criando um odor nosso, viciante. Impossível não pensar em nós de mãos dadas até padecermos de corcundas e idade avançada. Beijos que nos levam a outras dimensões e nos fazem esquecer o que aconteceu e vai acontecer, são beijos reais, beijos generosos que nos enraízam no momento. Complicado imaginar faltas de respeito, mentiras ou traições enquanto o nosso coração bate com vida. Porque há corações que apenas batem mecanicamente. Corações mal usados e doentes. Corações que não vivem o seu papel. Corações tristes, com gosto a azedo que palpitam por obrigação. Não tive medo. Logo no primeiro dia em que o vi confiei no seu olhar, postura e mergulhei nos seus dizeres. Foi fácil entregar-me, largar as rédeas. Loucura foi o que criticaram, inveja foi o que publicaram, ciúmes foi o que denunciaram. Felizmente quando dois corações se fundem criam barreiras a esse ranho poluente. Quando o senti pela primeira vez dentro de mim tive a certeza de sermos só um. Quando estas coisas mágicas ocorrem o amor é tal qual um escudo brilhante capaz de resistir aos amargos. Um escudo livre de qualquer maldição. Como poderia não acreditar num final feliz? Foi no dia em que sucumbi que ele deixou de acreditar. O “para sempre” deixou de andar sozinho e ficou coxo. Mesmo com todas as bengalas o seu passo não seguia em frente. Acho que quis voltar para trás e, dessa forma, esqueceu-se de caminhar. Houve um dia em que se deitou e cerrou a visão, com tanta força até a esmigalhar. Saboreou o sangue que lhe escorria para a boca e deixou-se afundar. Nesse dia descobriu como o “para sempre” nunca fora uma expectativa porém a maior das verdades.