| por marta marques |
“Foram felizes para sempre”. Foi o que idealizei quando o conheci. Ouvi o clichê dos contos das princesas e agarrei-me a ele. Imaginei-nos como casal comunicante, parelha que se admira, beneficiários de cumplicidade. Difícil não cair neste desejo quando tudo flui, conversas de gostos iguais, valores semelhantes, sonhos a dois. Sexo químico, união de peles, arrepios na espinha, cheiros que se misturam criando um odor nosso, viciante. Impossível não pensar em nós de mãos dadas até padecermos de corcundas e idade avançada. Beijos que nos levam a outras dimensões e nos fazem esquecer o que aconteceu e vai acontecer, são beijos reais, beijos generosos que nos enraízam no momento. Complicado imaginar faltas de respeito, mentiras ou traições enquanto o nosso coração bate com vida. Porque há corações que apenas batem mecanicamente. Corações mal usados e doentes. Corações que não vivem o seu papel. Corações tristes, com gosto a azedo que palpitam por obrigação. Não tive medo. Logo no primeiro dia em que o vi confiei no seu olhar, postura e mergulhei nos seus dizeres. Foi fácil entregar-me, largar as rédeas. Loucura foi o que criticaram, inveja foi o que publicaram, ciúmes foi o que denunciaram. Felizmente quando dois corações se fundem criam barreiras a esse ranho poluente. Quando o senti pela primeira vez dentro de mim tive a certeza de sermos só um. Quando estas coisas mágicas ocorrem o amor é tal qual um escudo brilhante capaz de resistir aos amargos. Um escudo livre de qualquer maldição. Como poderia não acreditar num final feliz? Foi no dia em que sucumbi que ele deixou de acreditar. O “para sempre” deixou de andar sozinho e ficou coxo. Mesmo com todas as bengalas o seu passo não seguia em frente. Acho que quis voltar para trás e, dessa forma, esqueceu-se de caminhar. Houve um dia em que se deitou e cerrou a visão, com tanta força até a esmigalhar. Saboreou o sangue que lhe escorria para a boca e deixou-se afundar. Nesse dia descobriu como o “para sempre” nunca fora uma expectativa porém a maior das verdades.