| por marta marques |
Barba não demasiado
grande
cortada em modo de falta
de jeito ou moquenquice
atulhada de fendas fluorescentes
uma face marcada por
mordidas do tempo.
Amedrontado com o mundo
nunca o aceitou
ou este não o aceita a
ele
caminha trémulo e a cada
passo temo que caia.
Vira sem dificuldade a
cara de um lado para o outro
a um ritmo alucinado
provoca-me ansiedade.
Veste camisas por cima de
camisas
de botões trocados sem
pretensões
apenas prova de desleixo
desencaixe.
Calça uns números acima
da sua realidade
não me choca no meio de
tanto alheamento.
Está um dia não muito
frio de início de primavera
sem chuva
um Sol descarado.
Também ele é descarado
não atrevido.
Descarado pois não têm
cara
não possui cartão de
cidadão
não há impressão digital
registada
nem faz parte do esquema.
É um fora
um sem abrigo
um desajustado.
De alguma forma é o meu
espelho
Desajustado.
As calças a única peça que
faz clique com a personagem
não demasiado largas
nem estreitas
nem compridas ou curtas
muito menos limpas.
As mãos declamam unhas
encardidas
pretas
de uma secura
denunciadora das noites passadas ao frio. Apressado
dirige-se na direção do
meu carro
cada vez mais perto.
Observadora silenciosa
espero que siga
Todavia não.
No meio de tantos carros
imobiliza à minha frente
examina
como uma coruja
os olhos são baços como
de um peixe podre
sinto-lhe o fedor
mesmo fechada na viatura.
Abre a braguilha
demasiado rápido
expõe o seu pénis mirrado
doente e sujo
O meu coração acelera de
forma pouco provável
são poucos os segundos
para uma reação.
Parece querer urinar mas
não consegue
tem dores
aflição
precisa de o fazer e
escolhe o meu carro
Escolhe-me a mim.
Tudo se passa em menos de
um minuto
parece dias
Não sou capaz de mais
Faço marcha atrás e fujo
realmente fujo
fujo daquele buraco
juro não mais estacionar ali
Não o olho
não sei se me viu
se já me tinha visto
se ficou envergonhado
irritado
não sei o que pensa
Se pensa
Facilmente chorei
Com vómitos pela
decadência
por aquele pessoa
por mim
pelo sistema.
As lágrimas
essas
aproveitaram e lavaram
outros lugares escondidos
refugiados na memória.