| por marta marques |
Estava ciente de
que não era mais um cliente.
Era o cliente.
Já o tinha
observado mas nunca como hoje.
O dia quente
obrigava a pouca roupa, a t’shirt colada
ao corpo realçava os abdominais, o corte do tecido na zona do peito evidenciava
uma pele depilada e bem tratada.
Era a terceira
vez que Afonso ia à loja.
“A minha mãe
anda a mudar tudo lá por casa, agora decidiu alterar os cortinados. Os novos
são muito compridos e precisam de bainhas”, disse com uma voz fresca e rouca.
“O que o
Afonso faz?”, investigou Laura, encantada.
“Estudo
Relações Publicas e sou modelo”, respondeu humildemente.
“Que maravilha
de rapaz, a sua mãe deve estar muito orgulhosa.
Bom aluno,
bonito e, ainda para mais, prestável”, elucidou sorridente a costureira.
“Não sou assim
um aluno tão bom”, retorquiu com uma gargalhada e saiu da loja, desvanecendo-se
no meio do tumulto da Praça da Figueira.
Laura suspirou
enquanto perdia o olhar no jovem que, durante algum tempo, se diferenciou da multidão.
Fechou a loja
para a hora e meia de almoço.
Subiu as
escadas pálidas e barulhentas até à porta de casa.
A televisão abafava
a luz do Sol que penetrava pujantemente pelas cortinas amareladas da sala. José
sorriu e piscou-lhe o olho.
“Estás com
fome amor?”, perguntou esta carinhosamente.
Mais um piscar
de olhos como resposta.
Guisado de
lulas com arroz branco era o prato preferido do seu marido. Comeu bem e
repetiu. Esta mulher era, sem dúvida, uma cozinheira e companheira fora de
série. Há 25 anos que viviam assim, sem uma única queixa.
Foi aos 37
anos, devido a um acidente de viação, que José ficou imobilizado do pescoço
para baixo. Laura prometeu cuidar do marido para sempre. Agora com 60 anos de
idade, a costureira não se arrepende da vida que tem.
Ama o marido e
continua apaixonada.
É divertida,
doce e trata da higiene e alimentação da sua cara-metade com a mesma ternura
todos os dias.
“Vamos ter
festa amor”, disse em tom provocador. José sorriu com cumplicidade.
Abriu o
roupeiro do seu quarto e segurou no frasco. Já há algum tempo que não o usava. O
vidro embaciado permitia ver a suavidade do líquido e os retoques em ouro
continuavam intactos, digno de uma peça de museu. A última vez que o abriu foi
há 1 ano, também no Verão, com um polícia sisudo cujo nome não se lembra.
Afonso
apareceu dois dias depois para buscar os cortinados. Laura estava com clientes
e pediu-lhe que esperasse um pouco. O jovem acenou e sorriu. Com a loja já
vazia, fechou a porta.
“Pode ajudar-me
Afonso? Tenho os cortinados ainda em casa pois terminei o trabalho ontem muito
tarde. Talvez pudesse ajudar-me a trazê-los para a loja”. Prontamente, o rapaz concordou.
Não havia Sol
na sala. Era um final de dia cinzento.
Laura
apresentou-lhe o marido. Houve sorrisos educados.
Colocou a
mesma música com que fez amor com José tantas vezes, há tantos anos.
Afonso estava
visivelmente desconfortável.
Aquela casa
era demasiado intimista e manifestamente impregnada de estórias. O rapaz era
novo mas sensível e astuto.
Laura não
perdeu tempo e encheu-se daquele cheiro.
O frasco ainda
estava a meio, uma relíquia guardada há 20 anos, herança da bisavó.
De volta à
sala, sorriu para o jovem.
Não precisou
falar.
Afonso sentiu
o coração acelerado.
Incapaz de
resistir, despiu a costureira freneticamente, apalpou, beijou e lambeu-a como
um louco e fizeram sexo.
Fornicaram
intensamente durante horas.
José assistiu
com prazer.
Um prazer
real, nutritivo.
Mais uma vítima
nas suas vidas.
Um momento
quente.
Laura era sem
dúvida a mulher perfeita. A mulher da sua vida.