segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Ensaio sobre o Medo

por marta marques
Cobarde, cínico mas prevenido
Não experimenta a vida
aguenta-se nela mais sereno e tranquilo

Ganhado de herança
ganha força no meio hostil onde habita
Há quem o use como arma julgando ser poderosa
E quem o desafie descarada e impulsivamente.

Medo de viver, medo de morrer, medo de amar, medo de não amar, medo do futuro, medo pelo passado, medo de cair, medo de se levantar, medo de crescer, medo de estagnar, medo do escuro, medo de ver tudo às claras, medo de tudo  
medo de nada.

O medo é angustiante e dá dores de barriga
É repetitivo e cansa
Sabemos o que é ser forte ao saltarmos alguns dos degraus do medo
Arrisco-me a saltar dois de cada vez
gosto de o sentir a escorregar-me
tal um líquido viscoso grudado na pele.

Não tem cheiro mas cheira-me a mofo.

Há ideias contraditórias acerca do medo. Conflituoso, disperso e complicado.

Há quem o enfrente apoiado em artifícios
estupefacientes
E se transfira para um índio
a galope num cavalo sem cela
supondo defender o seu grupo
sua essência
sua verdade.

O medo não é verdadeiro
não existe
é uma pedra que dispomos carregar
o peso dá-nos segurança
O medo promete a confiança
tal um amante ao sussurrar
desejar-nos para toda a vida.

O maior medo dela era amar
entregar-se
oferecer a sua verdade a alguém
a quem jamais saberá cuidar da rosa.

Uma rosa agradece ser acariciada nas pétalas
não ser arrancada da terra, do seu alimento Necessita ser regada com constância
ser observada
apreciada.
Não ser deixada à sombra
colocada numa jarra

isso é morte certa.

Quem ama uma rosa deseja-a forte
com os espinhos que carrega

se necessário fere-se neles
degusta os outros sabores da sua verdade.
É preciso não ter medo para se cuidar de uma rosa
necessário tatear
cheirar
deixar-se embebedar pela sua beleza.

Ela sabia que ele tinha medo
ela também chamava o medo.

O medo de beber o outro
testar o doce e o azedo
permitir uma aventura interior.

Medo de descobrir o interior
o maior de todos os medos.
Medo de chegar a um qualquer lugar
diferente do que imaginámos.

Medo de escorregar em crenças e padrões que pensávamos não vestir.

Medo de não gostar daquilo que somos.
Somente medo de não saber como lidar com o ser.

Medo de ser
Medo de existir
Medo de respirar profundamente
Medo de ter dor
Medo dos caminhos imensos que povoam dentro do cérebro.

A mente assemelha-se a um oceano de diversas cores e profundidades
só quem não tem medo mergulhará
imergirá na verdade

Medo da verdade

Tenho medo.