terça-feira, 26 de agosto de 2014

A costureira

por marta marques 


Estava ciente de que não era mais um cliente.
Era o cliente.
Já o tinha observado mas nunca como hoje.
O dia quente obrigava a pouca roupa, a t’shirt colada ao corpo realçava os abdominais, o corte do tecido na zona do peito evidenciava uma pele depilada e bem tratada.
Era a terceira vez que Afonso ia à loja.
“A minha mãe anda a mudar tudo lá por casa, agora decidiu alterar os cortinados. Os novos são muito compridos e precisam de bainhas”, disse com uma voz fresca e rouca.
“O que o Afonso faz?”, investigou Laura, encantada.
“Estudo Relações Publicas e sou modelo”, respondeu humildemente.
“Que maravilha de rapaz, a sua mãe deve estar muito orgulhosa.
Bom aluno, bonito e, ainda para mais, prestável”, elucidou sorridente a costureira.
“Não sou assim um aluno tão bom”, retorquiu com uma gargalhada e saiu da loja, desvanecendo-se no meio do tumulto da Praça da Figueira.
Laura suspirou enquanto perdia o olhar no jovem que, durante algum tempo, se diferenciou da multidão.
Fechou a loja para a hora e meia de almoço.
Subiu as escadas pálidas e barulhentas até à porta de casa.
A televisão abafava a luz do Sol que penetrava pujantemente pelas cortinas amareladas da sala. José sorriu e piscou-lhe o olho.
“Estás com fome amor?”, perguntou esta carinhosamente.
Mais um piscar de olhos como resposta.
Guisado de lulas com arroz branco era o prato preferido do seu marido. Comeu bem e repetiu. Esta mulher era, sem dúvida, uma cozinheira e companheira fora de série. Há 25 anos que viviam assim, sem uma única queixa.
Foi aos 37 anos, devido a um acidente de viação, que José ficou imobilizado do pescoço para baixo. Laura prometeu cuidar do marido para sempre. Agora com 60 anos de idade, a costureira não se arrepende da vida que tem.
Ama o marido e continua apaixonada.
É divertida, doce e trata da higiene e alimentação da sua cara-metade com a mesma ternura todos os dias.
“Vamos ter festa amor”, disse em tom provocador. José sorriu com cumplicidade.
Abriu o roupeiro do seu quarto e segurou no frasco. Já há algum tempo que não o usava. O vidro embaciado permitia ver a suavidade do líquido e os retoques em ouro continuavam intactos, digno de uma peça de museu. A última vez que o abriu foi há 1 ano, também no Verão, com um polícia sisudo cujo nome não se lembra.
Afonso apareceu dois dias depois para buscar os cortinados. Laura estava com clientes e pediu-lhe que esperasse um pouco. O jovem acenou e sorriu. Com a loja já vazia, fechou a porta.
“Pode ajudar-me Afonso? Tenho os cortinados ainda em casa pois terminei o trabalho ontem muito tarde. Talvez pudesse ajudar-me a trazê-los para a loja”. Prontamente, o rapaz concordou.
Não havia Sol na sala. Era um final de dia cinzento.
Laura apresentou-lhe o marido. Houve sorrisos educados.
Colocou a mesma música com que fez amor com José tantas vezes, há tantos anos.
Afonso estava visivelmente desconfortável.
Aquela casa era demasiado intimista e manifestamente impregnada de estórias. O rapaz era novo mas sensível e astuto.
Laura não perdeu tempo e encheu-se daquele cheiro.
O frasco ainda estava a meio, uma relíquia guardada há 20 anos, herança da bisavó.
De volta à sala, sorriu para o jovem.
Não precisou falar.
Afonso sentiu o coração acelerado.
Incapaz de resistir, despiu a costureira freneticamente, apalpou, beijou e lambeu-a como um louco e fizeram sexo.
Fornicaram intensamente durante horas.
José assistiu com prazer.
Um prazer real, nutritivo.
Mais uma vítima nas suas vidas.
Um momento quente.
Laura era sem dúvida a mulher perfeita. A mulher da sua vida.