| por marta marques |
A verdade serve para muito pouco, na verdade.
As dores amachucam-me o corpo e esfolam-me as nervuras de
tal forma que a exacerbação se solta e gane como um cão aprisionado. A minha
cabeça aumentou de tamanho como uma esponja que absorve toda a imundice. Tomo
uma mão apinhada de medicamentos, mais uma. Podiam ser coloridos, mais
divertidos, reflexiono.
Queria sair daqui. Num avião ia para muito longe, para
aquele lugar verde com montanhas e torneado de mar e Sol quente. Onde a
humidade não magoa os ossos e as noites não obrigam a dormir com um camião de
cobertores estacionado por cima deste corpo aleijado. As dores não se intimidam
pelos meus sonhos, martelam-me até às entranhas e desenham-me olheiras. Vejo-me
ao espelho e mal conheço aquela mulher. Dentro de mim há um choro contido, um
grito fuzilado ainda com vida, uma irritação cheia de alma que assusta a minha
essência.
Contudo, a vida continua e vamos andando assim assim e o
tempo está frio mas está Sol e há pessoas com cancro e outras que conhecem pessoas
com cancro e outras que já perderam pessoas com cancro e há crianças a morrer à
fome todos os dias e mulheres que definham porque os maridos as espancam e há
sítios onde cortam clítoris a sangue frio pois é cultural e por isso muitas
mulheres fenecem e há lugares onde as senhoras não são senhoras mas objetos de
gajos que também têm uma cultura diferente e que acreditam ser certo matar
pessoas em nome do Deus deles e há muitas mais coisas muito tristes e
decadentes de saber que acontecem todos os dias neste planeta e que são muito
piores do que as minhas dores.
As minhas dores não interessam nada na verdade.
Então saio para a rua bem arranjadinha e agasalhada para
enganar o frio que é o pior inimigo das minhas dores e digo bom dia aos
vizinhos e aos pais dos amigos dos meus filhos na escola e ainda vou tratar de
assuntos do dia-a-dia e sou bem educada com as pessoas e compro a revista Cais
e dou os restos do pão de ontem aos pombos que os outros não gostam mas que eu
gosto porque gosto de todos os animais e por acaso até acho os pombos bem giros
e não me importo que caguem tudo pois irrita-me mais ver os cocós dos cães com donos sem educação no chão e o lixo das pessoas na rua e os riscos feitos com sprays a
poluir as paredes do que os excrementos dos pombos nas estátuas.
Passo a tarde no hospital a levar remédios pela veia porque
os que engoli não chegaram para me aliviar mas consigo sair a horas de apanhar
os miúdos à escola, pois ainda tenho banhos e jantar para lhes dar, porque o
meu ex. marido tem a vida dele e parece não poder faltar nunca a nada.
Parece-me que todos têm uma vida cheia de coisas como
trabalho, amigos, filhos, mentiras, hipocrisias, verdades e, principalmente,
ocupada. Vidas ocupadas. Vidas cheias. Estou contente que tenham vidas cheias,
mesmo que sejam cheias de merda, o que interessa é serem cheias.
Agora já de noite tomo mais um valium. E encerro a vista
para entrar numa outra verdade, a dos sonhos. Uma verdade que não conheço
conscientemente mas que me foi dita ter a forma de uma onda. Verdade ou não, o
que sei é que estou preste a entrar nessa onda e nesta espero surfar sem dores e
com todo o atrevimento que a minha alma permitir.
E amanhã será outro dia na verdade. Possivelmente será. Na
verdade nunca o saberemos.