| por marta marques |
Ela tinha saudades dele. Ele tinha
saudades dela.
Ele dizia sem vergonha que a desejava.
Proferia ama la. Ela agarrava se ao silêncio. Por vezes, pensava em dizer lhe
coisas feias mas verdadeiras. Outras vezes, quase escorregava numa rendição, derrapava
nos segredos do coração herdado. Abraçava quase sempre o silêncio, melhor
assim, não faz doer os ouvidos, não enche a língua de disparates. Contudo, a
saudade estava lá. Sempre.
E os encontros retomaram. Foram ao
de leve, como numa noite em que não é permitido acordar quem dorme. Devagar.
Com uma calma falsa. Os reencontros cuspiam quietude apenas à vista, por dentro
mais pareciam tambores em laboração. Ela olhava o e visualizava um beijo, um
beijo com efeitos especiais, daqueles de alta produção, primeira categoria.
Tanto entupidos de sensualidade como de doçura. Uma ternura jamais encontrada.
Uma sensibilidade sensível, como se isso fosse possível. Ela sabia que o era. O
toque segue se sempre, a contornar a face, as formas, apreciar a veracidade do camarim
da pele, porque só quem sabe tocar sabe como a pele sabe a bichinhos da seda. A
ansia, a respiração ofegante, uma falta de ar de extrair o fôlego ao coração,
porque só quem sabe amar sabe como o coração pode estilhaçar de emoção. E a
parte felina surge de seguida, a metamorfose de quem sabe ser apaixonado, de
quem realmente transpira intensidade, o arrancar daquela camisa bem engomada e
disfarçada de criatura de negócios, uma máscara que ofusca um homem desesperado
por amar. Ela sabe o tão bem. Sente o, cheira o. E deseja o tanto. Porém outras
coisas parecem ter mais importância. Há que apertar a camisa, pentear o desejo
e agarrar as palavras, na realidade, apenas são meias palavras. O olhar porém,
esse jamais encobrirá.

