terça-feira, 27 de outubro de 2015

mentiras

por marta marques

Ela tinha saudades dele. Ele tinha saudades dela.
Ele dizia sem vergonha que a desejava. Proferia ama la. Ela agarrava se ao silêncio. Por vezes, pensava em dizer lhe coisas feias mas verdadeiras. Outras vezes, quase escorregava numa rendição, derrapava nos segredos do coração herdado. Abraçava quase sempre o silêncio, melhor assim, não faz doer os ouvidos, não enche a língua de disparates. Contudo, a saudade estava lá. Sempre.

E os encontros retomaram. Foram ao de leve, como numa noite em que não é permitido acordar quem dorme. Devagar. Com uma calma falsa. Os reencontros cuspiam quietude apenas à vista, por dentro mais pareciam tambores em laboração. Ela olhava o e visualizava um beijo, um beijo com efeitos especiais, daqueles de alta produção, primeira categoria. Tanto entupidos de sensualidade como de doçura. Uma ternura jamais encontrada. Uma sensibilidade sensível, como se isso fosse possível. Ela sabia que o era. O toque segue se sempre, a contornar a face, as formas, apreciar a veracidade do camarim da pele, porque só quem sabe tocar sabe como a pele sabe a bichinhos da seda. A ansia, a respiração ofegante, uma falta de ar de extrair o fôlego ao coração, porque só quem sabe amar sabe como o coração pode estilhaçar de emoção. E a parte felina surge de seguida, a metamorfose de quem sabe ser apaixonado, de quem realmente transpira intensidade, o arrancar daquela camisa bem engomada e disfarçada de criatura de negócios, uma máscara que ofusca um homem desesperado por amar. Ela sabe o tão bem. Sente o, cheira o. E deseja o tanto. Porém outras coisas parecem ter mais importância. Há que apertar a camisa, pentear o desejo e agarrar as palavras, na realidade, apenas são meias palavras. O olhar porém, esse jamais encobrirá.

sábado, 22 de agosto de 2015

Caminhada

por marta marques



Pequena, magra a defecar para o frágil, estreita, certeza de órgãos pequenos, pequenos ou esmigalhados de tanto estrangulamento, tão curto espaço, veias fortes, salientes e escuras, borradas de sangue vivo, testemunho de intensidade, tanta que corrói, a convicção de ser comida, comida por dentro, por um ácido cáustico, devastador. Porque ter vida é ter motivos para ser comido, porque ser atento é a fatalidade, a metamorfose instantânea para a formação da presa, a presa da sociedade apática, a sociedade que julga respirar, comunidade que não sente a máscara que usa, tão bem anexada, fundida que está, considera fazer parte, nem sente o peso, o peso tal uma manta num dia arrefecido, conforta e aquece, engana e manipula o frio. Cadáver, mulher de corpo franzino e olhos fundos, de dar arrepios e sentir repulsa, contudo a mulher de coração usado e veios reais sabe o significado da paixão vezes sem conta e como a viver em todos os graus. Já experimentara a subida das escadas para as estrelas tantas vezes, uma verdadeira campeã da maratona da entrega, da respiração profunda, da mente sintonizada com o tempo. Como qualquer recordista tombou tantas vezes, tantas, as suficientes para outro qualquer humano de máscara não se atrever a pisar as mesmas escadas, todavia a mulher de ossos salientes transpira e solta gotas de ambição, de querer, de vida. Possuidora de lágrimas salgadas, sabor de  quem vive intensamente, quão mar devora a terra e arrisca toca la com a força da essência produzida. A mulher de olhar parado ainda sente a bandeira enraizada no seu ponto de luz, no âmago da sua alma. A mulher que prefere a falta de ar ao ar envenenado das mascarilhas dos semelhantes, volta a subir os degraus, não com o mesmo vigor, arrasta se, obstinada no caminho para os asteriscos, caminhadas lentas mas de honestidade. A mulher de ossos partidos tem o corpo atingido de dor, não sabe mais como respirar sem sofrimento, porém prefere o oxigénio da realidade, opta pela nudez, mesmo vestida de um corpo de medo, porque o pânico é de quem vê, escuta, sabe. A mulher de tristeza vincada nas rugas escavadas na pele está cansada mas continua a subir as escadas rijas de sentido aos astros.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Dormência

por marta marques

As cores não estão de acordo comigo, nem as texturas, nem os cheiros, nem os olhares que tropeçam nas minhas lágrimas. Momentos, fases, idade, seja o que for, o que interessa é o que é. Se escolher viver o momento e é mau que seja. Não dá para raciocinar positivo quando nos sentimos prejudiciais nem para fingir que os pensamento que ferem estão protegidos por pensos rápidos. As feridas saram, sim, podemos confirmar, contêm se, adormecem, mas basta uma raspadela, um toque e despertam. Pior do que tudo, acordam com remelas, não se sentem bem, não se veem bem porém, estão acordadas.
Incomoda. Cheira mal. Não encontro desinfectante nem sabão que as torne, ao menos, mais asseias. Criam peso. Inventam cola. Deitam pus. Disfarço o meu corpo encontrando me com outro corpo. Não sei se este tem pensamentos podres sem possível reciclagem, não há prosas sobre isso. As conversas são alimentadas de néctar tinto e fluem por atalhos mais simpáticos. Nascem gargalhadas desembaraçadas e os corpos ganham vontade. Vontade de se experimentarem, nutrirem dos seus cheiros, de uma viável química. Afortunadamente respira se química, funciona como um analgésico, um relaxante. Aconchega os medos. Os corpos derretem e escorregam na vontade, dão se. O coração cresce e dá passos maiores, os olhares sentem voluntariedade em cruzar e envolverem se.
As estrelas descem até aos corpos e iluminam os. A noite já não mete medo.
Encaixamos sem atrito, sem apreensão, sem pareceres. Finalmente o momento.
O meu corpo abre como as pétalas recebem o Sol, gosto do ato da largada das defesas, da ultima inspiração, do ofegar empático dos corpos. Conexão honesta, desfrutação, entrega.

Vazio. De volta as memórias.

Silêncio. Dor. Habituação. Dormência.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

(re) Nasce uma Mulher

por marta marques


Nem a voz conhecera lhe ainda, sabia o quanto o som era influente nestas ocorrências. Vozes agudas não vibravam na sua energia, vozes adocicadas de reclamação snobe não a estimulavam, vozes sem alma e vigor faziam na lembrar os tempos de droga que só queria esquecer, extinguir, vozes carguejadas pelas narinas davam lhe alergia, como unho grudado ao corpo. Sabia como a voz era importante, ou então não voz. Estar com quem só fala pelo olhar e pelas mãos também valia, melhor do que o arsenal de vozes sem bateria para um momento de entrelace. Uma voz segura, grave, masculina com o tempo certo entre palavras, de pronuncia certa e paragens inteligentes fazia a história. Contudo não lhe conhecia a sua, imaginava a.

Queria tocar lhe com o olhar.

Durante meses permutaram mensagens de entendimento, por algum motivo sabia que as conversas não tinham sido mentira. Gostava da forma como ele se entregava nas palavras, palavras escritas sem erros e na medida certa. A escrita também a fascinava. Um homem que tempera a escrita persuadia. Se ousa aplicar diminutivos, retalha palavras ou utiliza palavras púberes perde lhe a piada. Para ela era assim. Fulcral. Já tinha experimentado muito, era exigente. Não por teimosia ou crenças desatinadas, sabia querer prazer e de onde alimentar se, esse era a único tema.
Visualmente sabia qual a sua figura, cabelo nem muito curto nem comprido, ondulado e bravio, olhos grandes mel de pestanas extensas, lábios densos, barba fina e clara desenhada numa face de ossos generosos. Robusto, ombros fortes e peito cheio, lembrava-se dessa imagem. Agora era homem e isso agitava a.
O encontro sem expectativa ocorreu nessa noite. Uma porta aberta, uma casa de luminosidade recatada, vista rio, música, uma simples vela a iluminar uma garrafa de vinho e dois copos límpidos. Há clichés que funcionam na perfeição, clichés que de tanto serem pescados, simplesmente resultam.

Ouviu lhe a voz e aprovou, sorriu por esta ser uma expectativa importante.

Tragaram vinho em silencio a encarar a água que disfarça a cidade suja, a lua ainda não estava redonda, talvez amanhã estivesse. Sentiu a língua a encher lhe a boca sequiosa, adivinhou lhe o paladar, o sabor a vinho misturado, era delicado, sabia tatear. Experimentou lhe a boca e gostou, tanto que os olhos fecharam tal uma cortina no final de uma peça. Roçaram os lábios como fizessem parte um do outro. As mãos dele sentiram o corpo dela e surgiu aquele arrepio interior de conexão química, respiração espertada, os beijos ampliaram se, os corpos dançaram como as ondas que aquele rio desejava. No chão entregaram se, rebolaram, riram e fundiram-se. O encaixe irrepreensível, ela sentiu se preenchida por ele, ele sentiu se abraçado por ela. É caso raro as partes íntimas vestirem o mesmo número. Por momentos nem se mexeram, apenas usufruíram do encasamento e olharam se, ele falou e disse as palavras certas, ela sorriu com o sorriso perfeito e navegaram naquele rio sem medo, sem restrições, sem máscaras.


Durou o tempo sem tempo e foram tão longe quanto existe de longe. Deixaram se cair abraçados no cansaço e aqueceram os corpos despidos com a veemência germinada.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Buraco Negro

por marta marques

Por mais que tente, que esteja atenta e provoque o desatento, continuo no limbo, no buraco negro. Desconfio da existência de quem saiba o que é e como sair dele, mas não lhe convém revelar tal gáudio, talvez por a luz ser o maior tesouro de todos e os Homens se matarem por opulências. Sem dúvida, esta é uma verdadeira fortuna, dá clareza, dá vida e, o seu maior poder, dá paz. É por este trunfo que estranho a luta das Criaturas pois nunca antes lutaram pela paz, sim pela desgraça e tristeza. Desconfio que escondem o segredo do buraco negro por outros motivos. Quando um indivíduo afunda-se no buraco negro dão a mão, porém é esta a ajuda que nos deixa na orla, andamos a vaguear como cães vadios à procura de um canto, de um espaço neste planeta que nos deixe mais tranquilos. Já escorreguei umas quantas vezes no buraco negro e consegui sair, sempre com ratoeiras e esquemas prazenteiros, deixaram-me com pedras nos bolsos.

Tantas pedras, pesadas, sujas.

Há dias tropecei de novo no buraco negro e descobri um pouco mais acerca da escuridão, os bolsos rasguei-os para ficar mais leve, não resultou, as costuras estão demasiado bem controladas, nem uma rocha se atreveria a rasgá-las. Enfrentei aquela boca sem vida e desejei desligar o som do meu coração.

O cenário suponho que tudo seja menos um cenário pois a cenários estamos nós habituados, carregado de aroma húmido e nauseativo, som patológico, zumbidos baixos e imperceptíveis dão alimento a uma ansiedade antropófaga, imagens misturadas onde se destacam insectos rastejantes e madeiras apodrecidas, bolor, rires falsos. A pele, lasca pelas paredes ásperas mas não sente dor, não nutre nada, tem excesso de energia, vive um formigueiro latente, parece estar em chamas mas sem queimar, o coração está cansado mas agitado, tem medo, tanto, está inflamado. A cabeça é uma batalha, caçou tanta informação, tanta emoção, agora brinca tal uma criança energúmena e salta de monte em monte, desarruma tudo o que tanto trabalho deu a compor. O buraco negro é uma máquina de tortura mental, experimenta quem mais se abre para o Sol, para o mar, para os seres vivos, quem recusa colagens com crenças, personagens criadas e amores banais, é uma máquina feita à medida dos mais sensíveis e tem toques de malvadez esmerados.