quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Cinzas

por marta marques


Ficou um caminho por descobrir. Emoções por viver. Discussões por ter. Conversas por calcorrear. Noites quentes por provar. Ficou um passado amargo. Ficou um futuro por existir. Ficaram as recordações, as lágrimas, as gargalhadas, a cumplicidade, a brincadeira, os ciúmes, o julgamento, os medos, as expectativas. Ficou. Ficou embalsamado na memória a ocupar um espaço de saudade que derrete com aquela música, aquele lugar ou aquele pensamento que se atreve a passar o risco. O risco foi o que nos fez parar e não deixar a história continuar. O risco que para mim nunca foi risco mas sim rabiscos que conspurcaram aquilo que seria o mais natural de ser. Rabiscos com direito a borrões com direito a nódoas sem estratagemas para sair. Ficou tudo e não ficou nada. Foi tempo de desapego e com ele uma nova forma de estar. E estás bem, tão bem que percebo como fiz bem em serrar esse caminho. Tão bem que entendi que entre nós nada houve, nem um caminho começado.

Permaneci sentada no fim desse caminho, de pernas cortadas por mim. Sem vergonha chorei de cara no chão e com lágrimas de lama que me desenharam outra expressão. Ao Sol sequei essa cara durante décadas e ganhei uma nova, de trajetos profundos idênticos às raízes de uma senhora árvore. Então ganhei estrutura, ganhei uma mágoa, ganhei uma dor, ganhei uma aceitação afinal. Granjeei uma maturidade emocional com cuspos de frieza e um coração com furos de agonia. Não ficou um caminho por descobrir, ficou sim um caminho descoberto onde fui obrigada a ver o fim. Estava lá desde sempre, tal como o céu está para quem acredita nele.


Um fim afoito mas doloroso, um fim colorido mas de roupas escuras. Não porque acredito num luto carregado mas porque a minha pele faz alergia a roupas alegres. Perdi a vontade de respirar mas na verdade continuo a respirar. A verdade é que apenas já não te respiro e isso dá-me falta de ar. Não descobri oxigénio no termo e percorri um longo trilho sem te dar as mãos, sem te cheirar, sem te olhar, sem te abraçar, sem te comer...e como eu gostava de te petiscar, beliscar e saborear. Neste caminho fui testemunha de muitos começos e muitos fins e em todos eles estiveste lá, mesmo que transformado em cinzas.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

A verdade

por marta marques


A verdade serve para muito pouco, na verdade.
As dores amachucam-me o corpo e esfolam-me as nervuras de tal forma que a exacerbação se solta e gane como um cão aprisionado. A minha cabeça aumentou de tamanho como uma esponja que absorve toda a imundice. Tomo uma mão apinhada de medicamentos, mais uma. Podiam ser coloridos, mais divertidos, reflexiono.

Queria sair daqui. Num avião ia para muito longe, para aquele lugar verde com montanhas e torneado de mar e Sol quente. Onde a humidade não magoa os ossos e as noites não obrigam a dormir com um camião de cobertores estacionado por cima deste corpo aleijado. As dores não se intimidam pelos meus sonhos, martelam-me até às entranhas e desenham-me olheiras. Vejo-me ao espelho e mal conheço aquela mulher. Dentro de mim há um choro contido, um grito fuzilado ainda com vida, uma irritação cheia de alma que assusta a minha essência.

Contudo, a vida continua e vamos andando assim assim e o tempo está frio mas está Sol e há pessoas com cancro e outras que conhecem pessoas com cancro e outras que já perderam pessoas com cancro e há crianças a morrer à fome todos os dias e mulheres que definham porque os maridos as espancam e há sítios onde cortam clítoris a sangue frio pois é cultural e por isso muitas mulheres fenecem e há lugares onde as senhoras não são senhoras mas objetos de gajos que também têm uma cultura diferente e que acreditam ser certo matar pessoas em nome do Deus deles e há muitas mais coisas muito tristes e decadentes de saber que acontecem todos os dias neste planeta e que são muito piores do que as minhas dores.

As minhas dores não interessam nada na verdade.

Então saio para a rua bem arranjadinha e agasalhada para enganar o frio que é o pior inimigo das minhas dores e digo bom dia aos vizinhos e aos pais dos amigos dos meus filhos na escola e ainda vou tratar de assuntos do dia-a-dia e sou bem educada com as pessoas e compro a revista Cais e dou os restos do pão de ontem aos pombos que os outros não gostam mas que eu gosto porque gosto de todos os animais e por acaso até acho os pombos bem giros e não me importo que caguem tudo pois irrita-me mais ver os cocós dos cães com donos sem educação no chão e o lixo das pessoas na rua e os riscos feitos com sprays a poluir as paredes do que os excrementos dos pombos nas estátuas.

Passo a tarde no hospital a levar remédios pela veia porque os que engoli não chegaram para me aliviar mas consigo sair a horas de apanhar os miúdos à escola, pois ainda tenho banhos e jantar para lhes dar, porque o meu ex. marido tem a vida dele e parece não poder faltar nunca a nada.

Parece-me que todos têm uma vida cheia de coisas como trabalho, amigos, filhos, mentiras, hipocrisias, verdades e, principalmente, ocupada. Vidas ocupadas. Vidas cheias. Estou contente que tenham vidas cheias, mesmo que sejam cheias de merda, o que interessa é serem cheias.

Agora já de noite tomo mais um valium. E encerro a vista para entrar numa outra verdade, a dos sonhos. Uma verdade que não conheço conscientemente mas que me foi dita ter a forma de uma onda. Verdade ou não, o que sei é que estou preste a entrar nessa onda e nesta espero surfar sem dores e com todo o atrevimento que a minha alma permitir.

E amanhã será outro dia na verdade. Possivelmente será. Na verdade nunca o saberemos.







quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

por marta marques

Disse-lhe o nome porém não acreditou. Tornei a dizer-lhe mas não ouviu. Virou as costas, inverteu o rumo e foi. Insisti. Gritei-lhe o nome, o eco atacou-o pela retaguarda contudo fingiu não o sentir. Não quis saber e seguiu. Fingiu não querer, mentiu-se. Corri, segurei e olhei-o nos olhos tentando falar-lhe através da alma. Pestanejou, o seu espírito sabia que eu não mentia. Conquanto ocorreram crenças e medos que o desligaram do âmago e persistiram na realidade convenientemente criada. Foi aí que aferrolhei os olhos e entreguei-me à desistência, majestaticamente torna tudo bem mais fácil. Fácil fingir, principalmente quando temos um cúmplice. Dei-lhe a mão e esmigalhamo-nos num abraço deixando o tempo perder-se no tempo e permitindo a mentira.


E o silêncio pairou, repousou pelos nossos ombros e escorregou nos nossos corações. E a paz voltou porque nasceu uma sintonia. A sintonia da fabulação. No mesmo ritmo coramos pela conivência e seguimos aquele caminho. O nome enterramos nas vísceras, embora saiba ser uma semente de onde nascerá veneno que intoxicará o meu corpo até à extinção. Escolhi viver o agora sem nome. Afinal, um nome é apenas um nome.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Morreu

por marta marques
Lembro-me do sabor do primeiro macaco rapinado do interior do meu pequeno e perfeito nariz empinado, da primeira vez que produzi um balão de pastilha elástica Pirata que detonou na minha face e enovelou no meu cabelo comprido, liso e pintado de vermelho. Do primeiro linguado debaixo da mesa onde se jantava no Natal, ao meu primo que não mais vi. Momentos que já não existem e não são o que hoje sou, zelados e escriturados no meu álbum neuroniano. Recordo a minha imagem por volta das 12 anos, magra, rabo alçado, mamilos a furarem pelo peito e os primeiros pelos escuros a contrastarem na pele profundamente láctea.
Posso espia-la em fotografias amareladas e com aroma a pó veladas naquela gaveta que guarda destas coisas.

Aquela não sou eu. Aquela já morreu.
Aquele corpo não é o corpo que hoje tenho, corpo gasto e de onde já saíram 3 crianças e onde desfrutei esfolamentos criados pelas minhas escolhas emocionais e químicas e enganadoramente sem limites. Aquele corpo era de uma inocente que acreditava no amor e afiançava que as bolinhas de sabão eram mágicas e geradas por fadas.

Era uma menina melancólica que não sabia o que a melancolia era.
Uma menina com falta de colo que não sabia existir colo.
Uma menina Maria-rapaz sem saber que os rótulos existiam.

Na verdade, essa menina morreu.

Morreu o seu corpo, o seu olhar e a sua inocência, conquanto agora saiba o quanto inocente é neste mundo de gente indecente. Aquela menina gostava de falar com as árvores, com as bonecas e com a cadela que ajuizava ser uma pessoa. Aquela menina passou muitas horas sozinha e quando foi para o colégio não sabia estar tantas horas com tantos meninos. Mas gostou tanto, tanto que no primeiro dia de escola não queria voltar para casa no final do dia. Aquela menina foi feliz por ter amigos e crer que gostavam dela.

Aquela menina já não existe.
Sabe agora como os amigos não são assim tão amigos e que de hora em quando não se incomodam em aguçar facas no coração de uma mulher com medos de menina.


quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Início



por marta marques
Subiu as escadas sem folgo, como se os pulmões já não fossem pulmões e sim duas bolas de ar prontas a rebentar. Essa era a verdade, queria que explodissem sem qualquer hipótese de conservar uma gota de oxigénio. Estourassem como uma botija tóxica e a sufocassem lentamente como uma mordida de uma cascavel. Por isso continuou, subiu as escadas e com um cigarro na boca, absorvido no tempo em que subiu mais cinco lanços de escadas. Já sem ver, sem oxigenação no cérebro, desfrutou do estonteamento onde circulava e gostou. Sempre saboreou o fora do normal, as asas da loucura, na realidade a insanidade da liberdade. Atreveu-se a olhar para cima e tomou consciência do que ainda faltava caminhar, e sorriu. Apoiada no corrimão de madeira maciço mas vetusto sentiu-lhe os veios fortes e invejou-lhe a delicadeza em tanta robustez. E continuou. Subiu as ultimas escadas já sem resistir à gravidade, como se voltasse ao início. Tal como na origem, quando ainda não sabemos ser possível simplesmente aguentar com o peso da cabeça, agora já nem se aguentava com o corpo, já não suportava com o peso de uma vida. Seria o fim como o começo? Acreditou que sim. Sabia que sim. E na ultima das escadas deitou-se enovelada como um feto e ali ficou.