Há quem a coma, diga ser
a parte mais saborosa, os que a retiram com receio de uma apocrisia, a lavam
bem, desinfectam antes de comer. Dos legumes, à fruta, ao queijo, aos
animais, tudo tem pele, a roupa, o refúgio garantido. Hoje reflito sobre a
minha pele, são poucas as vezes que o fiz. Tratei-a mal durante anos,
intoxiquei-a de fumo, queimei-a ao Sol, sequei-a ao vento e gastei-a com a má
vida, torturei-a com tristezas e sofrimento. Hoje resolvi dar-lhe paz, tocar, nutrir, agradecer-lhe por me defender há
tanto tempo dos agressores. Observo o meu reflexo e as rugas incutidas na minha
face, as sardas que a salpicam e a penugem microscópia que a preenche. Sorrio
agradecida por ser natural, sem maquilhagem falseada ou de plásticas, dou-lhe
ar, dou-lhe vida e sinto-a. Pele macia.
Através da língua
alcanço ao máximo a minha casca em redor dos lábios, sabe-me bem. Se pudesse
lambia-a com a minúcia de um gato. Sabe a sal. Sabe a existência. Tem
movimento, energia contida. Chupo os dedos das mãos, experimento o sabor dos
braços. Gracejo. Pareço uma louca? Talvez. Porém, sei que não sou. Ou talvez a
sanidade seja loucura. Aprecio o toque dos lençóis nas minhas costas, o suor
que lambuça a minha pele. Cada sensação parece durar horas, os arrepios
manifestam-se, são os gritos da pele e estão eufóricos. Sou então capaz de me
olhar, atrevo-me a inclinar e encarar os meus membros inferiores. Chamuscados
por um qualquer incêndio, num dia qualquer que não quero recordar. Não os
reconheço, perderam os sentidos, a sua natureza, tal uma floresta despida por
um fogo posto. Apalpo as pernas devagar, legitimo a parte morta. A dor
finalmente está estável, mas só a física. Agora dispo-me de fingimentos e
custa-me a aceitar que metade de mim explodiu. Detonou, todavia continua colado
em mim, agarrado, fixo. Falam-me em ter paciência, numa possibilidade de
regeneração.
A minha pele não se
reformou como a de uma cobra, a minha pele foi-me arrancada à força, trilhada,
amordaçada e desistiu de respirar. Foi-se embora e não veio nenhuma
substituí-la. Estou despida, apenas carrego um manto de cinzas que se
transformarão numa rabanada de cicatrizes. Porém, posso escolher viver e
alimentar-me da parte viva. Recordo uma vez mais o meu rosto, comtemplo a minha
pele, toco-a e encerro a visão.