terça-feira, 2 de setembro de 2014

Sebastião

por marta marques


Sebastião não se cansa das horas que passa sentado
no alpendre da casa da Avenida Gago Coutinho
Está cómodo na cadeira de madeira barulhenta
sem o fantasma do tempo
Gosta do movimento dos carros
Gosta das buzinas
Gosta de dizer adeus às crianças que lhe cruzam o olhar.
A enfermeira insiste para que não ande tanto
Não pode cansar-se
Sugere que vá para o jardim nas traseiras
Mais perto
Cuidado pela Sra. Rosa, recheado de rosas vermelhas. 
Sebastião não gosta do jardim
Contempla as flores mas não quer estar com pessoas.
Aborrece-lhe as queixas, as rugas, o cheiro da velhice, os já escassos cabelos brancos e as conversas melancólicas apegadas de memórias.  
Sebastião gosta de ver a estrada
Uma maratona de 200 metros que lhe parecem quilómetros
fazem sentir-se vivo.
Imagina a vida das pessoas que vislumbra dentro dos veículos
Vê cães à janela de algumas viaturas
Gostava de ter um
Um sonho nunca concretizado
Seus pais nunca gostaram de animais e Camila assustava-se com eles.
Camila
Sua paixão durante 40 anos
Amor puro, cumplicidade, prazer.
Casamento genuíno
Como era bom fazerem amor.
Ainda lhe sente o cheiro.
Fecha os olhos e toca-lhe a pele, o cabelo cor de amêndoa
os olhos rasgados de uma luminosidade azul que apenas o mar, tocado pelo Sol, lhe faz concorrência.
O corpo contornado e leve, cheio de interesse
As conversas sábias, mulher observadora, visionaria.
Sebastião pensa no passado
porém não como os colegas do corredor da morte.
Sem dor, sem apego, como um privilégio
Sorte por ter andado de mãos dadas com ela
Com quem descobriu a exaltação, união e humildade.
A sua sensibilidade arrebatava-o.
Juntos viveram momentos deliciosos e amargos
Juntos viveram a vida.
Sem lamechices ou pirosices
embora carregados de palavras carinhosas
que deixaram escapar pela ganância do sentimento.
Camila continua dentro de Sebastião
no silêncio, ouve-a.
O Astro-Rei parte, a enfermeira Madalena chama-o para jantar.
Passa um carro com um enorme cão à janela
de focinho ao vento
estremece a dentadura e parece sorrir
Sebastião ri, enquanto lhe diz adeus
Sabe que os cães o conseguem ver, mesmo a preto e branco.
Levanta-se e sente uma rajada de vento
Agride-lhe o coração
tenta tossir mas fica perplexo naquela sensação cavada
Cai bruscamente no chão.
Os olhos estão abertos mas o coração parou
Contudo sorri.