domingo, 12 de outubro de 2014

por marta marques


Não gosto da chuva nem gozo do barulho da chuva
não gosto da forma como brota sem permissão
como nos cospe para cima
Não tolero a intensidade da chuva
invasiva esgota-me a neura
Já não tolero dias de chuva
Já são muitos os meses sem testemunho do Sol
não lhe sinto os raios
sobrevivo a uma noite indeterminável
Falta o vigor do Astro-Rei
Estar em Lisboa sem a luz de Lisboa
tal qual cair num poço apinhado de ecos
Foi naquele dia cinzento e molhado
enquanto apetecia secar a humidade da roupa num café
numa das esquinas da cidade
que encontrei o envelope
No meio do chão sujo por pés molhados e poluição
estava ali
brilhante e branco
sem manchas e fechado
Agarrei-o sem medo que pertencesse a outra mão
Soube ser para mim
Intuição
arrogância
curiosidade
não quero saber
sei que soube ser para mim
Sem temor abri-o
Dentro achei uma folha cuidadosamente dobrada
encaixada no envelope sem qualquer vergoada
Desabotoei-a devagar
quando desflorou ocupou sem vergonha toda a mesa do café
desenhada tinha um Sol
Sorri
Equilibrei as lágrimas do meu coração na borda dos meus olhos
guardei o envelope com a folha inexoravelmente bem dobrada
Aquele era o meu Sol
Foi-me oferecido apenas para me lembrar

No meio da gentinha apressada de guarda-chuva na mão
carros barulhentos e mal educados
caminhei calmamente a sorrir
molhada
inundada de gotas
escorregadia
tingida de roupa
Porém
repleta de luz
Encontrei-te na outra esquina
conservavas-te enxuto protegido num toldo
empapada passei-te o envelope seco
e segui
segui as correntes da calçada portuguesa
distorcidas por aquele mar de chuva
e pela primeira vez gostei da chuva
gostei de nadar no silêncio
de respirar no meio do afogamento