| por marta marques |
Não
gosto da chuva nem gozo do barulho da chuva
não
gosto da forma como brota sem permissão
como
nos cospe para cima
Não
tolero a intensidade da chuva
invasiva
esgota-me a neura
Já
não tolero dias de chuva
Já
são muitos os meses sem testemunho do Sol
não
lhe sinto os raios
sobrevivo
a uma noite indeterminável
Falta
o vigor do Astro-Rei
Estar
em Lisboa sem a luz de Lisboa
tal
qual cair num poço apinhado de ecos
Foi
naquele dia cinzento e molhado
enquanto
apetecia secar a humidade da roupa num café
numa
das esquinas da cidade
que
encontrei o envelope
No
meio do chão sujo por pés molhados e poluição
estava
ali
brilhante
e branco
sem
manchas e fechado
Agarrei-o
sem medo que pertencesse a outra mão
Soube
ser para mim
Intuição
arrogância
curiosidade
não
quero saber
sei
que soube ser para mim
Sem
temor abri-o
Dentro
achei uma folha cuidadosamente dobrada
encaixada
no envelope sem qualquer vergoada
Desabotoei-a
devagar
quando
desflorou ocupou sem vergonha toda a mesa do café
desenhada
tinha um Sol
Sorri
Equilibrei
as lágrimas do meu coração na borda dos meus olhos
guardei
o envelope com a folha inexoravelmente bem dobrada
Aquele
era o meu Sol
Foi-me
oferecido apenas para me lembrar
No
meio da gentinha apressada de guarda-chuva na mão
carros
barulhentos e mal educados
caminhei
calmamente a sorrir
molhada
inundada
de gotas
escorregadia
tingida
de roupa
Porém
repleta
de luz
Encontrei-te
na outra esquina
conservavas-te
enxuto protegido num toldo
empapada
passei-te o envelope seco
e
segui
segui
as correntes da calçada portuguesa
distorcidas
por aquele mar de chuva
e
pela primeira vez gostei da chuva
gostei
de nadar no silêncio
de
respirar no meio do afogamento