Enlaçado na escrita, admirava-lhe as expressões fabricadas
ao teclar, inspirava-se a fumar no alpendre de casa e ouvia-o tossir por
pulmões cansados. À noite brindava-se com um copo carregado de whisky. Muitas vezes adormecia sobre o
teclado e tantas vezes quis aninhá-lo com uma manta. Falava pouco ao telemóvel,
muito com o cão. Era um escritor cliché cheio de pinta e enchia-me o coração de
sonhos. Um dia iria apaixonar-se por mim
e tornar-me-ia eterna.
Sim, escreveria sobre nós, sobre o nosso amor.
Um solitário cansado e desenhado de rugas. Ouvi-lhe a voz
rouca, pelo tabaco ou para completar o charme.
Todas as quartas-feiras de manhã saía no carro empoeirado, sempre
apressado. Como sempre neste dia, regressaria pela noite.
Chegara o momento de me informar mais sobre o homem da
minha vida.
Invadi o seu terreno, de coração a galope, galguei a janela
da sua sala e entrei cúmplice com o cão. Na casa senti-lhe o cheiro, a energia,
rocei nos livros dispersados e nos maços de tabaco acabrunhados. O computador
aberto, o teclado pingado de migalhas. Toquei-lhe e fui presenteada pela sua
escrita.
“(...) perdi-a para sempre naquela máquina de asas falsas. A
explosão soou-me também a mentira. Recusei e bani-a da mente cerrando os olhos
e lembrando-me de todos os momentos miríficos que passamos. Contudo a verdade é
esta. Não foi só aquele avião que rebentou, com ele o meu amor”.
E foi quando acabei de o ler que experimentei o maior ruído,
o estremecer de toda a casa, janelas expelidas, computador despedaçado e eu desligada
no chão. Acordei ao colo do escritor. Uma aeronave explodiu contra a minha casa
arrasando o meu ninho e a vida do piloto.
“Vou tratar de si. Felizmente refugiou-se na minha casa.”