terça-feira, 28 de outubro de 2014

o Escritor

Enlaçado na escrita, admirava-lhe as expressões fabricadas ao teclar, inspirava-se a fumar no alpendre de casa e ouvia-o tossir por pulmões cansados. À noite brindava-se com um copo carregado de whisky. Muitas vezes adormecia sobre o teclado e tantas vezes quis aninhá-lo com uma manta. Falava pouco ao telemóvel, muito com o cão. Era um escritor cliché cheio de pinta e enchia-me o coração de sonhos. Um dia iria  apaixonar-se por mim e tornar-me-ia eterna.
Sim, escreveria sobre nós, sobre o nosso amor.
Um solitário cansado e desenhado de rugas. Ouvi-lhe a voz rouca, pelo tabaco ou para completar o charme.
Todas as quartas-feiras de manhã saía no carro empoeirado, sempre apressado. Como sempre neste dia, regressaria pela noite.
Chegara o momento de me informar mais sobre o homem da minha vida.
Invadi o seu terreno, de coração a galope, galguei a janela da sua sala e entrei cúmplice com o cão. Na casa senti-lhe o cheiro, a energia, rocei nos livros dispersados e nos maços de tabaco acabrunhados. O computador aberto, o teclado pingado de migalhas. Toquei-lhe e fui presenteada pela sua escrita.

“(...) perdi-a para sempre naquela máquina de asas falsas. A explosão soou-me também a mentira. Recusei e bani-a da mente cerrando os olhos e lembrando-me de todos os momentos miríficos que passamos. Contudo a verdade é esta. Não foi só aquele avião que rebentou, com ele o meu amor”.

E foi quando acabei de o ler que experimentei o maior ruído, o estremecer de toda a casa, janelas expelidas, computador despedaçado e eu desligada no chão. Acordei ao colo do escritor. Uma aeronave explodiu contra a minha casa arrasando o meu ninho e a vida do piloto.
“Vou tratar de si. Felizmente refugiou-se na minha casa.”
E foram as últimas palavras que lhe ouvi.
por marta marques