| por marta marques |
Chorava por tudo e sobretudo por nada. Sobretudo gostava de
chorar.
Sempre testemunhei o choro como a outra face do riso, das
gargalhadas espalhafatosas que escorregam por entre os dentes. Sobretudo sabia
que ao chorar abundantemente esgotaria as lágrimas e com a seca dominaria o
Sol, o sorriso, a luz, a alegria. Nada dura para sempre nem mesmo o choro. Até
a pessoa mais triste do mundo finda o depósito mais recôndito de lágrimas,
embora tendencionalmente também faleça. É usual a morte ser a opção de quem não
aceita, quem não aspira ver em alta definição, quem tenciona plantar roseiras
sem se picar numa rosa. O choro acostumado a ser associado à dor pode ser choro
de libertação e uma escalada até ao topo.
Depois de meses a choramingar como quem usa luvas para
limpar, mendigava por um choro depravado. Senti-me nua, experimentei a imundície
escapar pelos poros da pele, enchi-me de uma manta tóxica de raiva, angustia,
prisão, tristeza e enganos. A sujidade transformada numa enorme garra de lodo.
Em instantes fui preenchida por aquele ranho e encolhida no chão. Foi um
esmigalhar tão poderoso que as lágrimas saltaram exprimidas e quando dei conta
o dia já tinha apagado a luz e eu dormia estendida sobre o tapete. Os cabelos
colados à cara assemelhavam-se a pincéis secos abusados após preencherem telas com
emoção.
Sobretudo era assim que me sentia, ressequida. Com frio. Com
silêncio na mente. E, sobretudo, com silêncio no coração.
Já não me pesavas no coração. Furaste-o e escapaste naquela
garra que me libertou. Ficou o buraco, todavia saiu o haltere.
Recebi afavelmente o silêncio que estava de costas para mim já
há tanto tempo.
Sorri e voltei a sorrir. Sorri com tanta airosidade que doei
sons a este sorriso. Sobretudo ri por tudo e por nada.