quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Por nada

por marta marques
Chorava por tudo e sobretudo por nada. Sobretudo gostava de chorar.
Sempre testemunhei o choro como a outra face do riso, das gargalhadas espalhafatosas que escorregam por entre os dentes. Sobretudo sabia que ao chorar abundantemente esgotaria as lágrimas e com a seca dominaria o Sol, o sorriso, a luz, a alegria. Nada dura para sempre nem mesmo o choro. Até a pessoa mais triste do mundo finda o depósito mais recôndito de lágrimas, embora tendencionalmente também faleça. É usual a morte ser a opção de quem não aceita, quem não aspira ver em alta definição, quem tenciona plantar roseiras sem se picar numa rosa. O choro acostumado a ser associado à dor pode ser choro de libertação e uma escalada até ao topo.
Depois de meses a choramingar como quem usa luvas para limpar, mendigava por um choro depravado. Senti-me nua, experimentei a imundície escapar pelos poros da pele, enchi-me de uma manta tóxica de raiva, angustia, prisão, tristeza e enganos. A sujidade transformada numa enorme garra de lodo. Em instantes fui preenchida por aquele ranho e encolhida no chão. Foi um esmigalhar tão poderoso que as lágrimas saltaram exprimidas e quando dei conta o dia já tinha apagado a luz e eu dormia estendida sobre o tapete. Os cabelos colados à cara assemelhavam-se a pincéis secos abusados após preencherem telas com emoção.
Sobretudo era assim que me sentia, ressequida. Com frio. Com silêncio na mente. E, sobretudo, com silêncio no coração.
Já não me pesavas no coração. Furaste-o e escapaste naquela garra que me libertou. Ficou o buraco, todavia saiu o haltere.
Recebi afavelmente o silêncio que estava de costas para mim já há tanto tempo.
Sorri e voltei a sorrir. Sorri com tanta airosidade que doei sons a este sorriso. Sobretudo ri por tudo e por nada.