| por marta marques |
Lembro-me do sabor do primeiro macaco rapinado do interior do meu pequeno
e perfeito nariz empinado, da primeira vez que produzi um balão de pastilha
elástica Pirata que detonou na minha face e enovelou no meu cabelo comprido, liso
e pintado de vermelho. Do primeiro linguado debaixo da mesa onde se jantava no
Natal, ao meu primo que não mais vi. Momentos que já não existem e não são o
que hoje sou, zelados e escriturados no meu álbum neuroniano. Recordo a minha
imagem por volta das 12 anos, magra, rabo alçado, mamilos a furarem pelo peito
e os primeiros pelos escuros a contrastarem na pele profundamente láctea.
Posso espia-la em fotografias amareladas e com aroma a pó veladas naquela
gaveta que guarda destas coisas.
Aquela não sou eu. Aquela já morreu.
Aquele corpo não é o corpo que hoje tenho, corpo gasto e de onde já saíram
3 crianças e onde desfrutei esfolamentos criados pelas minhas escolhas
emocionais e químicas e enganadoramente sem limites. Aquele corpo era de uma
inocente que acreditava no amor e afiançava que as bolinhas de sabão eram
mágicas e geradas por fadas.
Era uma menina melancólica que não sabia o que a melancolia era.
Uma menina com falta de colo que não sabia existir colo.
Uma menina Maria-rapaz sem saber que os rótulos existiam.
Na verdade, essa menina morreu.
Morreu o seu corpo, o seu olhar e a sua inocência, conquanto agora saiba
o quanto inocente é neste mundo de gente indecente. Aquela menina gostava de
falar com as árvores, com as bonecas e com a cadela que ajuizava ser uma pessoa.
Aquela menina passou muitas horas sozinha e quando foi para o colégio não sabia
estar tantas horas com tantos meninos. Mas gostou tanto, tanto que no primeiro
dia de escola não queria voltar para casa no final do dia. Aquela menina foi
feliz por ter amigos e crer que gostavam dela.
Aquela menina já não existe.
Sabe agora como os amigos não são assim tão amigos e que de hora em
quando não se incomodam em aguçar facas no coração de uma mulher com medos de
menina.
