terça-feira, 25 de novembro de 2014

Morreu

por marta marques
Lembro-me do sabor do primeiro macaco rapinado do interior do meu pequeno e perfeito nariz empinado, da primeira vez que produzi um balão de pastilha elástica Pirata que detonou na minha face e enovelou no meu cabelo comprido, liso e pintado de vermelho. Do primeiro linguado debaixo da mesa onde se jantava no Natal, ao meu primo que não mais vi. Momentos que já não existem e não são o que hoje sou, zelados e escriturados no meu álbum neuroniano. Recordo a minha imagem por volta das 12 anos, magra, rabo alçado, mamilos a furarem pelo peito e os primeiros pelos escuros a contrastarem na pele profundamente láctea.
Posso espia-la em fotografias amareladas e com aroma a pó veladas naquela gaveta que guarda destas coisas.

Aquela não sou eu. Aquela já morreu.
Aquele corpo não é o corpo que hoje tenho, corpo gasto e de onde já saíram 3 crianças e onde desfrutei esfolamentos criados pelas minhas escolhas emocionais e químicas e enganadoramente sem limites. Aquele corpo era de uma inocente que acreditava no amor e afiançava que as bolinhas de sabão eram mágicas e geradas por fadas.

Era uma menina melancólica que não sabia o que a melancolia era.
Uma menina com falta de colo que não sabia existir colo.
Uma menina Maria-rapaz sem saber que os rótulos existiam.

Na verdade, essa menina morreu.

Morreu o seu corpo, o seu olhar e a sua inocência, conquanto agora saiba o quanto inocente é neste mundo de gente indecente. Aquela menina gostava de falar com as árvores, com as bonecas e com a cadela que ajuizava ser uma pessoa. Aquela menina passou muitas horas sozinha e quando foi para o colégio não sabia estar tantas horas com tantos meninos. Mas gostou tanto, tanto que no primeiro dia de escola não queria voltar para casa no final do dia. Aquela menina foi feliz por ter amigos e crer que gostavam dela.

Aquela menina já não existe.
Sabe agora como os amigos não são assim tão amigos e que de hora em quando não se incomodam em aguçar facas no coração de uma mulher com medos de menina.


quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Início



por marta marques
Subiu as escadas sem folgo, como se os pulmões já não fossem pulmões e sim duas bolas de ar prontas a rebentar. Essa era a verdade, queria que explodissem sem qualquer hipótese de conservar uma gota de oxigénio. Estourassem como uma botija tóxica e a sufocassem lentamente como uma mordida de uma cascavel. Por isso continuou, subiu as escadas e com um cigarro na boca, absorvido no tempo em que subiu mais cinco lanços de escadas. Já sem ver, sem oxigenação no cérebro, desfrutou do estonteamento onde circulava e gostou. Sempre saboreou o fora do normal, as asas da loucura, na realidade a insanidade da liberdade. Atreveu-se a olhar para cima e tomou consciência do que ainda faltava caminhar, e sorriu. Apoiada no corrimão de madeira maciço mas vetusto sentiu-lhe os veios fortes e invejou-lhe a delicadeza em tanta robustez. E continuou. Subiu as ultimas escadas já sem resistir à gravidade, como se voltasse ao início. Tal como na origem, quando ainda não sabemos ser possível simplesmente aguentar com o peso da cabeça, agora já nem se aguentava com o corpo, já não suportava com o peso de uma vida. Seria o fim como o começo? Acreditou que sim. Sabia que sim. E na ultima das escadas deitou-se enovelada como um feto e ali ficou.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Acabou

por marta marques


Estava feliz.
O Sol insolente acalorava o quarto enquanto arranhava-me as pernas. Os lençóis fediam a nós e a minha pele tresandava à tua. Os músculos doridos, ressacados de tudo o que nos atrevemos a fazer por amor.
Ainda estava quente.
Cansada.
E descansava na cama onde me cansei. Nua e sem frio, despida de preconceitos e crenças e pensamentos futuros. Proibi tudo o que limita qualquer amor proibido. Pelo menos naquela hora que me restava, naquele quarto de hotel. Num dos muitos onde estivemos. Os dois, sempre em segredo e sem segredos um para o outro. A minha mente extenuada não se deu ao trabalho de cogitar na dor que prometia vir. A decisão do fim foi minha e isso bastava-me para ganhar todas as armaduras necessárias. O momento ainda consistia agarrado em mim e com este uma jubilação que me mimoseava com um sorriso sereno.
Entreguei-me a ti, deixei os meus sentimentos e a minha casca derreterem-se em ti, aceitei-te dentro de mim como se me marcasses para sempre. Sei que houve entrega tua, sei que sim. Embora de nada me sirva entregas às migalhas.
Julgo que a entrega não existe em qualquer casal nem para aqueles sem amores impedidos. Há quem não saiba estar feliz e acha-se bem, como se tivesse o direito de ignorar a verdade, quem viva a rotina, as responsabilidades e a imagem. Quem pense que vive mas que não imagina o que é viver. As horas passadas juntos neste leito foram intensas e fizeram-nos explodir, libertar os dramas, hipocrisias e aborrecimentos. Foram de entrega, contudo de nada me servem.
Os nossos corpos fundiram-se num e concederam corda ao meu coração. Assim estava feliz, sabendo que ia ficar triste.
Porque nada dura para sempre, nem a infelicidade.


quarta-feira, 5 de novembro de 2014

por marta marques
Uma mulher acorda com uma pedra colorida, que nunca viu antes, nas mãos.
Uma mulher acorda com uma serpente colorida a dançar-lhe no corpo.
Uma mulher acorda nua com o corpo pintado de forma precauciosa e colorida.
Joaquim amou as três.
Jamais deixamos de amar quem amámos. O amor não acaba, renova. Se não evoluiu não é amor é estagnação, cobardia. O amor não envelhece, amplia tal uma teia de aranha atulhada de fios, admiravelmente agrilhoados. O amor é brilhante. Se não, não é amor.
Joaquim sabia acerca do amor.
Madalena foi a primeira. Com ela aprendeu a sentir as pessoas, a usar o coração e a bambear a cabeça. Descobriu beleza no comum e a degustar cada onda do mar. Fazer amor com Madalena foi clarificar como duas pessoas se transformam numa, e a profundidade de um beijo.
Anna foi quem tirou a sede da fúria, chegou-lhe ao ego e estremeceu as suas máscaras. Com Anna não se fingia. Era a força e a sensualidade.
Morgana foi a companheira. O poisar. O sentir vontade de abraçar e ficar. Um amor entrelaçado com garras, coerente, com oxigénio e cumplicidade.
Porque há quem morra sem ter vivido um amor.
Amar uma pessoa que não tem o mesmo sangue que nós mas sim a mesma alma, a mesma energia, a mesma língua. Porque quando há amor há sintonia.
Joaquim partia para sempre, já não tinha um coração para usar.
Joaquim prometeu uma lembrança antes de partir.
Não para garantir que nunca fosse esquecido. Os amores verdadeiros não se esquecem. Apenas um adeus peculiar.
Joaquim deixou-lhe uma pedra colorida como atributo à beleza no pormenor, uma serpente pela pulcritude no inesperado e no físico e uma pintura corporal como símbolo da perfeição num todo e sem máscaras materiais.
A mulher enrolou-se solitária em conchinha, de pedra colorida na mão fechada, enquanto a serpente escorregava no corpo pintado e assim ficou, como se de um quadro de amor se tratasse.