terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Dia dos Reis

por marta marques (sim fui eu que o tirei a fotografia em pequenina)
Dizem ter sido a 6 de Janeiro que Jesus recebeu presentes dos três Reis Magos, ansiosos por conhecerem este recém-nascido que um dia se tornaria alguém tão especial e marcante no planeta Terra. É portanto o dia dos Reis. 
Em algumas partes de Espanha é feriado e o dia da troca de presentes. 

Foi a 6 de Janeiro que o meu pai nasceu. E este foi o único Rei que conheci pessoalmente. 

Sim, o meu pai era um Rei. Não um Rei mau, nem um Rei daqueles que apenas dá ordens, embora fosse bastante autoritário. 
Era um Rei porque tinha luz dentro de si e uma coroa na cabeça sem forma física, uma coroa brilhante e mágica. 

O meu Rei tinha humor: convenceu-me durante anos que punha ovos -como as galinhas!- após beber o seu refrigerante preferido. Mascarava-se de personagens diversas – tais como mulheres de vozes agudas, cabeleiras fartas e de minissaias - e fazia-me acreditar nessas pessoas inventadas. 

Escrevia poemas tanto românticos tanto cómicos e nunca me deixou adormecer em criança sem engendrar uma história. O meu Rei era portanto um criativo e dos autênticos.

Não havia dia em que o meu Rei não me trouxesse um mimo, a maioria das vezes uma banda desenhada do Maurício de Sousa. O meu Rei tinha um bar montado na sala porque achava muita piada a bares mas só gostava de beber um tipo de whisky e era dos mais baratos. 

O meu Rei quando chegava a casa fazia castelos com partes do sofá da sala, onde eu me escondia e brincava, o que deixava a minha mãe fula (sobrava-lhe sempre a parte da arrumação) e a mim muito divertida. 

O meu Rei sonhava ter sido farmacêutico, embora tivesse estudado engenharia e acabado a trabalhar na empresa do seu pai (os mais cotas com certeza se lembram das lojas de lavores Dinlar... com os dois passarinhos a beijarem-se no logótipo).

O meu Rei era sportinguista de sangue e sofria tanto com este clube que “fazia maratonas” no corredor de casa alimentado pelos nervos, sempre que decorriam jogos e sempre que não podia ir ao estádio. 

O meu Rei sempre jogou futebol e um dia, ainda novo, partiu um osso de uma perna, todavia, obcecado com este desporto acabou por arrancar o gesso para dar mais uns pontapés à bola e não se tratou convenientemente, ficando impossibilitado de jogar e coxo para a vida.

O meu Rei falava comigo sobre tudo, sem preconceitos ou receios de me chocar ou assustar. O meu Rei ensinou-me que por detrás de alguém com ar severo pode existir um coração de um verdadeiro Rei. 
O meu Rei gostava de animais mas tinha medo de aranhas e de baratas e na praia usava sapatos de borracha para não haver a "mínima hipótese" de ser picado por um peixe-aranha. 

O meu Rei gostava de nadar no mar e quando o fazia parecia chegar a tocar no horizonte.

O meu Rei gostava de jogar bingo às sextas à noite e sempre que ganhava o prémio dividia-o comigo e com o meu irmão. 

O meu Rei tinha uma barba que arranhava muito à noite mas nunca se deitava sem me dar um beijo lambuzado. O meu Rei era generoso e tinha um olhar doce. O meu Rei tratava-me como uma verdadeira princesa e fez muita gente ter inveja de tal amor. 

O meu Rei deixou-se caçar por uma doença má e sofreu muito até esta o desfazer. Não comemoro os anos do meu Rei com o meu Rei há 8 anos pois transformou-se numa estrela e está longe. Porém, como todos os verdadeiros Reis, está sempre luminoso e a olhar por mim e por quem ama. 

Eu sinto-o. 

Parabéns meu Rei, que falta me fazes... gosto tanto, tanto de ti.

A tua princesa

(escrito a 6 de Janeiro de 2015 - texto veridico, homenagem ao meu querido pai)



Gasto

por marta marques
Gasto das incomensuráveis esfregadelas de emoções como um palco gasto de tantas histórias contar e aplausos roubar. Gasto por sempre dar as chaves à paixão e de cair sem fôlego com tantos festejos e de tantas ressacas suportar. Gasto das escoriações pois, embora cicatrizadas, o deixam áspero e sujeito a maiores agressões. Gasto de bombear potente e intensamente e não ter onde jorrar tanta energia. Gasto de tristeza e de teimar em expectativas baleadas. Gasto de tão esborrachado ser e não chegar a morrer, por vezes queria mesmo desviver, só para não o sentir tão enlouquecido.

Chamam-me intensa, sinto-me é inquietante, consumida de tanta vontade em gastar este coração da forma que me sussurra. Sou generosa, ouço-o e quero dar-lhe o que me pede, porém, engano-o tantas vezes, apenas com o intuito de o serenar. Porque sou-lhe fiel, não sei ser de outra forma. Mas minto e confundo-o. Só para o serenar, eu juro.  Perdido vagueia por sonhos e visita órbitras forasteiras. Apenas para se acalmar. Gasto, comido por uma colherzinha de café, preenchido de buracos mal escavados saciados com memórias de distintas cores. Aquelas como do arco-íris que preenchem as covas com luz e as outras, as manchadas, as que soltam lama e entopem.
Refleti também usar uma pinça de alta precisão a fim de extrair cada agulha residente no coração, mas o único cirurgião que me poderia ajudar optou pela hipotética ética da profissão e recusou tal cirurgia.
Gasto de se coadunar, o coração deixa de dançar como habituado está, tropeça até cair.
O meu coração não é anoso nem tem refegos contudo está gasto. Gasto de ser mexido e remexido, usado e abusado, tocado e largado, não tem asas mas ficavam-lhe bem. O meu coração crê nessas asas mas eu já lhe disse, esse pensamento está gasto.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Sozinha

Uma mulher, sozinha numa sala pouco iluminada, desembrulha um presente.
Ele disse que voltava. Pediu-lhe que abrisse o presente quando ele fosse à casa de banho. O tempo demorado na casa de banho era o tempo necessário para ela desmascarar o presente e ter reação. Ele queria que ela inaugurasse o presente sozinha mas queria estar com ela logo de seguida. Foi o que ele disse após dar-lhe o presente. Pediu-lhe simplesmente isso. Alegou ser um presente para ser desempapelado sem companhia. Jurou não querer com isto criar expectativas, embora soubesse estar a criá-las. Pediu perdão, disse não ser sua intenção, porém voltou a rogar que a mulher só inaugurasse o presente após ele ir à casa de banho.

Era curiosa, todavia não ficou incomodada com a espera. Já tinha perdido aquela excitação de quando não se sabe ainda esperar. Estava habituada a aguardar.
Pousou o presente debaixo da cadeira e simplesmente esteve dedicada aquele homem todo o jantar. Era como se não houvesse um presente debaixo da cadeira, como se a curiosidade não fosse coisa com vida. Conversaram abundantemente como sempre, não desperdiçaram um segundo com palavras corriqueiras ou silêncios constrangedores. Saborearam a comida em conjunto, trocaram as caricias permitidas na mesa, olharam-se de lagos nos olhos e sorriram o bastante para que as orelhas sentissem arrepios com os cantos dos seus lábios.
por marta marques

Até que ele foi à casa de banho.
Ela não apanhou logo o presente. Deglutiu ainda um pedaço mais do sangue de cristo que restava. Asseou delicadamente os lábios e então capturou o presente.

Discretamente, no canto da sala onde estava sentada e com as luzes das velas como cúmplices, desembrulhou o presente. Foi assim que tudo começou e foi esse o último dia em que o presenciou.