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| por marta marques (sim fui eu que o tirei a fotografia em pequenina) |
Em algumas partes de Espanha é feriado e o dia da troca de presentes.
Foi a 6 de Janeiro que o meu pai nasceu. E este foi o único Rei que conheci pessoalmente.
Sim, o meu pai era um Rei. Não um Rei mau, nem um Rei daqueles que apenas dá ordens, embora fosse bastante autoritário.
Era um Rei porque tinha luz dentro de si e uma coroa na cabeça sem forma física, uma coroa brilhante e mágica.
O meu Rei tinha humor: convenceu-me durante anos que punha ovos -como as galinhas!- após beber o seu refrigerante preferido. Mascarava-se de personagens diversas – tais como mulheres de vozes agudas, cabeleiras fartas e de minissaias - e fazia-me acreditar nessas pessoas inventadas.
Escrevia poemas tanto românticos tanto cómicos e nunca me deixou adormecer em criança sem engendrar uma história. O meu Rei era portanto um criativo e dos autênticos.
Não havia dia em que o meu Rei não me trouxesse um mimo, a maioria das vezes uma banda desenhada do Maurício de Sousa. O meu Rei tinha um bar montado na sala porque achava muita piada a bares mas só gostava de beber um tipo de whisky e era dos mais baratos.
O meu Rei quando chegava a casa fazia castelos com partes do sofá da sala, onde eu me escondia e brincava, o que deixava a minha mãe fula (sobrava-lhe sempre a parte da arrumação) e a mim muito divertida.
O meu Rei sonhava ter sido farmacêutico, embora tivesse estudado engenharia e acabado a trabalhar na empresa do seu pai (os mais cotas com certeza se lembram das lojas de lavores Dinlar... com os dois passarinhos a beijarem-se no logótipo).
O meu Rei era sportinguista de sangue e sofria tanto com este clube que “fazia maratonas” no corredor de casa alimentado pelos nervos, sempre que decorriam jogos e sempre que não podia ir ao estádio.
O meu Rei sempre jogou futebol e um dia, ainda novo, partiu um osso de uma perna, todavia, obcecado com este desporto acabou por arrancar o gesso para dar mais uns pontapés à bola e não se tratou convenientemente, ficando impossibilitado de jogar e coxo para a vida.
O meu Rei falava comigo sobre tudo, sem preconceitos ou receios de me chocar ou assustar. O meu Rei ensinou-me que por detrás de alguém com ar severo pode existir um coração de um verdadeiro Rei.
O meu Rei gostava de animais mas tinha medo de aranhas e de baratas e na praia usava sapatos de borracha para não haver a "mínima hipótese" de ser picado por um peixe-aranha.
O meu Rei gostava de nadar no mar e quando o fazia parecia chegar a tocar no horizonte.
O meu Rei gostava de jogar bingo às sextas à noite e sempre que ganhava o prémio dividia-o comigo e com o meu irmão.
O meu Rei tinha uma barba que arranhava muito à noite mas nunca se deitava sem me dar um beijo lambuzado. O meu Rei era generoso e tinha um olhar doce. O meu Rei tratava-me como uma verdadeira princesa e fez muita gente ter inveja de tal amor.
O meu Rei deixou-se caçar por uma doença má e sofreu muito até esta o desfazer. Não comemoro os anos do meu Rei com o meu Rei há 8 anos pois transformou-se numa estrela e está longe. Porém, como todos os verdadeiros Reis, está sempre luminoso e a olhar por mim e por quem ama.
Eu sinto-o.
Parabéns meu Rei, que falta me fazes... gosto tanto, tanto de ti.
A tua princesa
(escrito a 6 de Janeiro de 2015 - texto veridico, homenagem ao meu querido pai)
