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| por marta marques |
Gasto das incomensuráveis esfregadelas de emoções como um palco
gasto de tantas histórias contar e aplausos roubar. Gasto por sempre dar as
chaves à paixão e de cair sem fôlego com tantos festejos e de tantas ressacas
suportar. Gasto das escoriações pois, embora cicatrizadas, o deixam áspero e
sujeito a maiores agressões. Gasto de bombear potente e intensamente e não ter
onde jorrar tanta energia. Gasto de tristeza e de teimar em expectativas baleadas.
Gasto de tão esborrachado ser e não chegar a morrer, por vezes queria mesmo desviver,
só para não o sentir tão enlouquecido.
Chamam-me intensa, sinto-me é inquietante, consumida de
tanta vontade em gastar este coração da forma que me sussurra. Sou generosa,
ouço-o e quero dar-lhe o que me pede, porém, engano-o tantas vezes, apenas com
o intuito de o serenar. Porque sou-lhe fiel, não sei ser de outra forma. Mas minto
e confundo-o. Só para o serenar, eu juro.
Perdido vagueia por sonhos e visita órbitras forasteiras. Apenas para se
acalmar. Gasto, comido por uma colherzinha de café, preenchido de buracos mal
escavados saciados com memórias de distintas cores. Aquelas como do arco-íris que
preenchem as covas com luz e as outras, as manchadas, as que soltam lama e entopem.
Refleti também usar uma pinça de alta precisão a fim de extrair
cada agulha residente no coração, mas o único cirurgião que me poderia ajudar optou
pela hipotética ética da profissão e recusou tal cirurgia.
Gasto de se coadunar, o coração deixa de dançar como
habituado está, tropeça até cair.
O meu coração não é anoso nem tem refegos contudo
está gasto. Gasto de ser mexido e remexido, usado e abusado, tocado e largado,
não tem asas mas ficavam-lhe bem. O meu coração crê nessas asas mas eu já lhe
disse, esse pensamento está gasto.
