Uma mulher, sozinha numa sala pouco iluminada,
desembrulha um presente.
Ele disse que voltava. Pediu-lhe que abrisse o
presente quando ele fosse à casa de banho. O tempo demorado na casa de banho era
o tempo necessário para ela desmascarar o presente e ter reação. Ele queria que
ela inaugurasse o presente sozinha mas queria estar com ela logo de seguida.
Foi o que ele disse após dar-lhe o presente. Pediu-lhe simplesmente isso. Alegou
ser um presente para ser desempapelado sem companhia. Jurou não querer com isto
criar expectativas, embora soubesse estar a criá-las. Pediu perdão, disse não ser
sua intenção, porém voltou a rogar que a mulher só inaugurasse o presente após
ele ir à casa de banho.
Era curiosa, todavia não ficou incomodada com a
espera. Já tinha perdido aquela excitação de quando não se sabe ainda esperar. Estava
habituada a aguardar.
Pousou o presente debaixo da cadeira e simplesmente
esteve dedicada aquele homem todo o jantar. Era como se não houvesse um
presente debaixo da cadeira, como se a curiosidade não fosse coisa com vida.
Conversaram abundantemente como sempre, não desperdiçaram um segundo com
palavras corriqueiras ou silêncios constrangedores. Saborearam a comida em
conjunto, trocaram as caricias permitidas na mesa, olharam-se de lagos nos olhos
e sorriram o bastante para que as orelhas sentissem arrepios com os cantos dos seus
lábios.
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| por marta marques |
Até que ele foi à casa de banho.
Ela não apanhou logo o presente. Deglutiu ainda um
pedaço mais do sangue de cristo que restava. Asseou delicadamente os lábios e
então capturou o presente.
Discretamente, no canto da sala onde estava sentada
e com as luzes das velas como cúmplices, desembrulhou o presente. Foi assim que
tudo começou e foi esse o último dia em que o presenciou.
