quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Sozinha

Uma mulher, sozinha numa sala pouco iluminada, desembrulha um presente.
Ele disse que voltava. Pediu-lhe que abrisse o presente quando ele fosse à casa de banho. O tempo demorado na casa de banho era o tempo necessário para ela desmascarar o presente e ter reação. Ele queria que ela inaugurasse o presente sozinha mas queria estar com ela logo de seguida. Foi o que ele disse após dar-lhe o presente. Pediu-lhe simplesmente isso. Alegou ser um presente para ser desempapelado sem companhia. Jurou não querer com isto criar expectativas, embora soubesse estar a criá-las. Pediu perdão, disse não ser sua intenção, porém voltou a rogar que a mulher só inaugurasse o presente após ele ir à casa de banho.

Era curiosa, todavia não ficou incomodada com a espera. Já tinha perdido aquela excitação de quando não se sabe ainda esperar. Estava habituada a aguardar.
Pousou o presente debaixo da cadeira e simplesmente esteve dedicada aquele homem todo o jantar. Era como se não houvesse um presente debaixo da cadeira, como se a curiosidade não fosse coisa com vida. Conversaram abundantemente como sempre, não desperdiçaram um segundo com palavras corriqueiras ou silêncios constrangedores. Saborearam a comida em conjunto, trocaram as caricias permitidas na mesa, olharam-se de lagos nos olhos e sorriram o bastante para que as orelhas sentissem arrepios com os cantos dos seus lábios.
por marta marques

Até que ele foi à casa de banho.
Ela não apanhou logo o presente. Deglutiu ainda um pedaço mais do sangue de cristo que restava. Asseou delicadamente os lábios e então capturou o presente.

Discretamente, no canto da sala onde estava sentada e com as luzes das velas como cúmplices, desembrulhou o presente. Foi assim que tudo começou e foi esse o último dia em que o presenciou.