quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Abraço-te

por marta marques


O silêncio.
O teu cheiro, a tua energia, tu. As tuas asas a envolverem o meu corpo frágil, olhos fechados, as tuas costas a navegarem para junto das minhas, a fim de fundirem-se através do meu peito, em mim.
Corações sintonizados, batucam com vida, num ritmo coincidente e exclusivo. Tocam a nossa música. 
Somos nós.
O nosso abraço, aquele abraço, o tal abraço. Um aperto que sabe bem e não apetece desapertar, faz-nos ser um, inspirar e expirar ao mesmo ritmo, falar sem voz, dar e receber num equilíbrio. Não há cobranças, não há desgaste, não há cansaço, fica-se nutrido. 
O meu corpo sorri, o teu corpo ri, a minha pele apropria-se da tua, o ar que escapa entre os dois corpos ao pouco é preenchido sem temor de perder oxigénio, tal qual um encaixe irrepreensível.
Não sei quanto tempo duram os abraços. Os abraços não tem tempo, é outro tempo. Não podemos falar do tempo das coisas que têm um tempo diferente daquele tempo a que estamos habituados a falar.
O abraço é o momento, não tem pressa, não tem coisas por resolver, está ali, somente sente.
É uma emoção física.
Acho que ficaria assim até transformarmo-nos numa estátua, esverdeados pela humidade e sem movimento. Uma representação que não deixaria indiferença. Fácil seria encontrar nos seus traços a verdade, a vontade, a entrega, a beleza, a poesia do amor.
Amar. Sempre te amei. Acho que nasci a amar-te. Jamais deixarei de te amar. Aquele abraço foi porventura o último. Hoje choro aquele abraço. Apego-me a este como desabafo. Saudade. Saudade de te abraçar.
Saudade de poder amar-te num abraço