| por marta marques |
(para maiores de 18)
Amor,
Isto é simplesmente uma carta de amor.
Quem nunca escreveu uma carta de amor? Ou recebeu
uma? Se o nunca existe para alguém é com lamento que o sinto e não o
compreendo.
Lamento por quem nunca experienciou abrir aquele
envelope ainda com o fedor de quem amamos e de coração baloiçante.
A noção de sermos amados e perpetuados através de
palavras. Ou no inverso, a entrega do nosso coração por intermédio da escrita,
de onde saem clichês amorosos que insistimos chamar de pirosos mas que acendem
o nosso âmago.
A ansia sentida ao ler uma carta deste teor é mágica
e honra-se com um ritual: estar sozinho, em silêncio e com o coração vivo.
Na verdade esta é uma carta de amor mas para
corações mortos. O meu morreu e o teu não sei.
Entre nós existe amor, peles que se fundem e se
esfoliam até produzirem aquele cheiro de parelha emparelhada. Cheiro
afrodisíaco, daquele que produz suspiros em cadeia. Entre nós existe união,
quando entras em mim e eu encaixo em ti sem espaços por encher, olhos nos
olhos, alma na alma, roçamo-nos como felinos e espreguiçamo-nos até gemidos de
arroubo. Agora sei como o teu pénis foi feito à medida da minha vagina. Fica
ali, quente e protegido, enquanto ela hospeda-o de forma tão intima como
inexplicável. A vagina maternal, o pénis à procura da toca perfeita para depois
ganhar autonomia, marcando território. Gozo verdadeiramente quando me marcas e
me enches de ti. Comunicamos tão bem intimamente. Uma dança que embora
universal é só nossa.
Hoje sei que não darei mais passos nesta dança,
perdi a coordenação, tropeço e magoo-me repetidamente. Aprendi que dançar não é
o suficiente para homenagear uma música. Também é necessário compreender a
letra, saber estar com ela noutros cenários e partilhá-la. A nossa música é
demasiado nossa, tão nossa que colocámos tampões nos ouvidos do planeta, tão
nossa que se contorceu egoisticamente.
Hoje sei que a nossa música foi apenas uma
experiência, uma tentativa frustrada de sermos grandes músicos um dia.
Um dia que já não cabe nesta vida.