quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Morte

por marta marques
Foi em Janeiro que a vi

Toquei a Morte, olhei-a de frente
Tive-lhe odio imediato
Não foi justa e não gosto de injustiças
Não se preocupou com o meu sofrimento, fez troça
Não era benigna esta Morte
Não tive medo dela porém, muita raiva
Tanta que era capaz de a matar
Como não sei matar o que já está morto apenas revoltei-me em prantos e ganidos 

Esmurrei a minha mãe até esta ficar negra, até contradisser tanta brancura
Sempre soube que a Morte a persuadiria a dar-lhe a mão
Pedi tanto à minha mãe para que não fosse com ela que não era boa companhia
Mas a minha mãe sempre admitiu a bondade
Coração doce acaba acre

Eu disse-lhe

Naquele dia em que o ano ainda nem se tinha levantado insistiu em sair à procura de mantimento
Garanti-lhe ficar bem com o que havia
Contudo, mãe que é mãe é teimosa e faz coisas às escondidas dos filhos

Assim foi assim ficou
Ficou três dias perdida na tempestade

Procurei-a sem medo da neve mas com medo de a encontrar na neve

E encontrei-a

Terminada

Quase tão láctea como a neve

Ao lado estava a Morte
Tão negra quase tingia a neve

Exasperado estava eu com a minha mãe

Já lhe tinha dito que corações bons não resistem
Todavia, as mães sempre com a mania que sabem mais do que os filhos, seguiu o amor e embrulhou-se com a Morte

A Morte consegue ser convincente e perdoei a minha mãe
  
Carreguei-a na minha bicicleta pela neve mais à Morte
Felizmente a minha mãe e a bicicleta não pesam tanto como a Morte
O peso desta é imensurável

Engana

Já estamos em novembro e continuo com o corpo consternado de a ter carregado.