| por marta marques |
Foi em
Janeiro que a vi
Toquei a Morte, olhei-a de frente
Tive-lhe odio imediato
Não foi justa e não gosto de injustiças
Não se preocupou com o meu sofrimento,
fez troça
Não era benigna esta Morte
Não tive medo dela porém, muita raiva
Tanta que era capaz de a matar
Como não sei matar o que já está morto apenas
revoltei-me em prantos e ganidos
Esmurrei a minha mãe até esta ficar negra, até
contradisser tanta brancura
Sempre soube que a Morte a persuadiria a dar-lhe a
mão
Pedi tanto à minha mãe para que não fosse com ela que não era boa
companhia
Mas a minha mãe sempre admitiu a bondade
Coração
doce acaba acre
Eu disse-lhe
Naquele
dia em que o ano ainda nem se tinha levantado insistiu em sair à procura de mantimento
Garanti-lhe ficar bem com o que havia
Contudo, mãe que é mãe é teimosa e faz
coisas às escondidas dos filhos
Assim foi assim ficou
Ficou três dias perdida
na tempestade
Procurei-a sem medo da neve mas com medo de a encontrar na neve
E encontrei-a
Terminada
Quase tão láctea como a neve
Ao lado estava a Morte
Tão negra quase tingia a neve
Exasperado
estava eu com a minha mãe
Já lhe tinha dito que corações bons não resistem
Todavia,
as mães sempre com a mania que sabem mais do que os filhos, seguiu o amor e embrulhou-se
com a Morte
A Morte
consegue ser convincente e perdoei a minha mãe
Carreguei-a
na minha bicicleta pela neve mais à Morte
Felizmente a minha mãe e a bicicleta
não pesam tanto como a Morte
O peso desta é imensurável
Engana
Já estamos em
novembro e continuo com o corpo consternado de a ter carregado.