sábado, 28 de junho de 2014

Pele

Há quem a coma, diga ser a parte mais saborosa, os que a retiram com receio de uma apocrisia, a lavam bem, desinfectam antes de comer. Dos legumes, à fruta, ao queijo, aos animais, tudo tem pele, a roupa, o refúgio garantido. Hoje reflito sobre a minha pele, são poucas as vezes que o fiz. Tratei-a mal durante anos, intoxiquei-a de fumo, queimei-a ao Sol, sequei-a ao vento e gastei-a com a má vida, torturei-a com tristezas e sofrimento. Hoje resolvi dar-lhe paz, tocar, nutrir, agradecer-lhe por me defender há tanto tempo dos agressores. Observo o meu reflexo e as rugas incutidas na minha face, as sardas que a salpicam e a penugem microscópia que a preenche. Sorrio agradecida por ser natural, sem maquilhagem falseada ou de plásticas, dou-lhe ar, dou-lhe vida e sinto-a. Pele macia.
Através da língua alcanço ao máximo a minha casca em redor dos lábios, sabe-me bem. Se pudesse lambia-a com a minúcia de um gato. Sabe a sal. Sabe a existência. Tem movimento, energia contida. Chupo os dedos das mãos, experimento o sabor dos braços. Gracejo. Pareço uma louca? Talvez. Porém, sei que não sou. Ou talvez a sanidade seja loucura. Aprecio o toque dos lençóis nas minhas costas, o suor que lambuça a minha pele. Cada sensação parece durar horas, os arrepios manifestam-se, são os gritos da pele e estão eufóricos. Sou então capaz de me olhar, atrevo-me a inclinar e encarar os meus membros inferiores. Chamuscados por um qualquer incêndio, num dia qualquer que não quero recordar. Não os reconheço, perderam os sentidos, a sua natureza, tal uma floresta despida por um fogo posto. Apalpo as pernas devagar, legitimo a parte morta. A dor finalmente está estável, mas só a física. Agora dispo-me de fingimentos e custa-me a aceitar que metade de mim explodiu. Detonou, todavia continua colado em mim, agarrado, fixo. Falam-me em ter paciência, numa possibilidade de regeneração.
A minha pele não se reformou como a de uma cobra, a minha pele foi-me arrancada à força, trilhada, amordaçada e desistiu de respirar. Foi-se embora e não veio nenhuma substituí-la. Estou despida, apenas carrego um manto de cinzas que se transformarão numa rabanada de cicatrizes. Porém, posso escolher viver e alimentar-me da parte viva. Recordo uma vez mais o meu rosto, comtemplo a minha pele, toco-a e encerro a visão.


 
por marta marques

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Jamaica

jamaica/ por marta marques


As montanhas emocionam com a virgindade oferecida, gelam a respiração e fazem-me querer voltar. Já regressei por isso algumas vezes, porque aqui apaixono-me todos os dias. O mar continuamente sedutor, o calor que nos abraça, as estrelas que se tornam íntimas, o som da noite, sinistro quanto divertido e os magistrais beija-flores. O humor mal humorado dos indígenas não é para todos os gostos bem como a erva que fumam incansavelmente. Contudo, o reggae parece ser dos sons mais amados e não obriga a coreografias. O sabor distinto a picante na comida e o café estranhamente deleitável. Sinto-me tão encaixada que pondero não retornar a Lisboa. Mais uma vez, a quinzena sabe a pouco, há muita ilha por descobrir, aventuras para gozar. Porém aquela noite superou tudo. Tão quimérica que receio deixar fugir, guardo-a firmemente na memória curta que tenho. Naquela noite conheci a Lagoa Luminosa, num barco de pesca velho. Sentenciei ir ao engano, ter gasto dinheiro numa daquelas excursões patetas, mas fui na mesma. A lua exibia-se cheia e nós no meio de uma lagoa escura, onde o céu negro se misturava com a água negra e com os pescadores negros. Bebiam rum e falavam estridentemente num inglês arranhado. A reação entre os turistas era a mesma. “Vamos mergulhar? Haverá crocodilos? A água está fria?”. Os rastafáris não deram explicações. Assim, saltei. A água era quente, fácil de nadar, parecia que boiávamos gratuitamente. Aquela experiência à luz das estrelas já era suficientemente boa e valia o dinheiro gasto. Até aperceber-me do lugar onde estava. Todos e quaisquer movimentos que fazia na água produziam rastos luminosos. A água estava efectivamente luminosa com os movimentos do meu corpo, como se as estrelas tivessem também mergulhado.

A beleza inexplicável fez daquele momento o mais mágico que vivi.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Oferecem-se lágrimas

por marta marques
“Compre um frasco de lágrimas e aplica uma lágrima em cada olho, três a quatro vezes ao dia”, foi a prescrição do oftalmologista. A minha vista precisa de hidratação, segundo o médico sofro de olhos secos, “com tendência a inflamar e a serem vitimas de conjuntivites contínuas”. Ao ouvir isto, a minha filha pergunta-me como se fazem lágrimas. “Juntam-se lágrimas do choro de várias pessoas para emprestar a quem precisa?”.
“Não. São lágrimas artificiais”, objetei. Respondi como adulta, como a mãe que explica as coisas, embora quisesse dizer que sim, que os humanos partilham lágrimas. Sempre gostei de lhes contar estórias bonitas mas há balizas. As minhas crias cresceram a considerar a existência do Pai Natal, a julgar as cores inconcebíveis que um por do Sol produz pintadas por fadas e as estrelas filhas do astro-rei e da lua que engravida mensalmente, permanecendo tão preenchida e bonita como qualquer mulher grávida. Ponderam que os falecidos vão viver para uma dessas estrelas e olham por nós. Podem sentir a luz vinda do avô querido, da tia Amelinha, do gato Nuvem e de muitas pessoas bonitas como o senhor Mandela e Jesus. Todos residem nesses pontos de luz e brilham sem se fatigarem.
É bom saber que eles admitem essa realidade. Não faz mal inventar estas estórias quando nem eu sei o que acontece a quem já partiu. A saudade dói, mas também lhes digo para apreciarem essa dor como algo doce, porque a saudade é terna, sentir falta do que partiu é porque nos encheu quando estava ao nosso lado e isso é agradável. Evidencio ser uma otimista quando falo com os meus filhos e sacio-me de orgulho por os encher de esperança neste globo maldito. Tenho o Sol como aliado, dá-me força quando sinto o seu calor na minha pele e tenho o privilégio de ver a cor que este reflete em tudo o que toca, é quando adivinho a beleza como algo transcendente e julgo-a uma bênção. Todavia, tudo é uma enorme treta nos dia cinzentos. Quando dou por mim a tomar seis comprimidos de manhã para me enganar e escondo-os dos meus filhos. Um para proteger o estômago, um para ser mais feliz, um para dar energia, um para tirar as dores, um para criar defesas e outro para sossegar a ansiedade. Tomo-os e finjo acreditar neles. Uma hipocrisia para andar em frente. Há muito que perdi as forças para navegar no trenó do Pai Natal e me aconchegar num amigo. Uma mãe faz destas coisas, só uma mãe sozinha sabe o que é ter de jogar com a própria vida para dar cor à vida dos filhos, mesmo no dia mais cinzento.


... choro, choro convictamente e penso como tenho tantas e tremendas lágrimas para doar a quem tem olhos secos como o deserto.

domingo, 22 de junho de 2014

sobre o TOQUE

          por marta marques


Não sei tocar nenhum instrumento contudo gostava de saber tocar piano. Não me toca o folclore mas toca-me o fado.
O toque dos telemóveis é irritante sobretudo numa sala de cinema, durante uma peça de teatro e desrespeitoso num velório. Há pessoas que me tocam. É fácil tocarem-me, basta serem genuínas, terem alguma graça e humildade. Tocam-me muito os animais. Tocam-me mais os do mar porque o mar me toca especialmente. As ondas monstruosas que não destroem casas mas destroem o stresse e nos varrem a mente. Toca-me tudo o que pertence ao oceano, as baleias desconcertantes com a sua pulcritude, as belugas cantantes que nos enfeitiçam, as mantas misteriosas e os golfinhos galhofeiros. O sal que me fica no corpo depois de um mergulho também me toca. O cheiro das coisas toca-me. Cheirar o creme que usava em criança toca-me, faz-me pele aos piquinhos. O cheiro do sótão da minha casa de infância toca-me, causa-me aperto nos maxilares. O cheiro do perfume da minha primeira paixão toca-me, solta-me um sorriso.
Gosto do toque, gosto de tocar. Sei tocar música sim, mas no coração dos outros. Todavia não é desafinada, é daquelas que entra logo no ouvido, porque nos toca. Quando toco as pessoas com as minhas palavras fico particularmente tocada. Gosto mais de tocar o coração dos outros do que ser tocada. Dá-me maior satisfação.
No entanto adoro o toque. Como o do abraço, o melhor de todos. Aquele
quente, acolhedor, que não faz comichão. Esse toque é peculiar e nem todos sabem como funciona.
O toque da criança que carregamos no ventre... esse deixo-o em silêncio. Impossível explicar o quanto toca.
O toque de quem amamos carnalmente também é um toque que me agrada. Queimoso e vibrante, faz-me sentir o sangue a correr, é um toque que se funde.
Já as dores físicas tocam-me de forma insuportável. Deixam-me irritada, frustrada, triste e até em negação. Porém, quando menores concebem-me um maior valor ao momento.
O Sol faz-me engolir em seco, toca-me de tal forma que é como se fizesse parte dele. Filha do Astro-rei. Soa-me bem. Não me parece pretensioso pois esta estrela toca-me de tal maneira. Por isso escrevi o meu primeiro livro sobre o Sol.
Tocou-me quando o vi ilustrado e, pela primeira vez, nas prateleiras de uma livraria. Foi preclaro. Ainda é, quando apresento o livro nas escolas às crianças, criaturas terrivelmente tocantes. As perguntas com o dedo no ar, as bocas abertas, os risos de cumplicidade, as criticas inofensivas, o interesse. Isto era impossível não me tocar. Tal como alguns filmes. Gosto daqueles com muita conversa, muitas palavras, muitos pensamentos soltos criadores de ideias que nos acendem luzes no cérebro. Filmes que no final nos deixam cobiçosos de um esconderijo, só para podermos digerir o que assistimos.
No outro dia, vi um velhinho na rua a vender pastilhas elásticas dentro de um cestinho de verga tão velhinho quanto ele. As pastilhas estavam com tantas cataratas como este parecia ter. Pedia uma ninharia por cada. Era muito magrinho, usava roupa que lhe dava para 2 gémeos dele e parecia não se dar conta do frio que se sentia naquela noite, estava firme e aparentava tranquilidade. O olhar embaciado era assustadoramente apático. Não havia emoções, aproximava-se com a vergonha perdida e revelava precisar de dinheiro.
Dei-lhe moedas para uns dez balões elásticos mas recusei as guloseimas. Apenas quis contribuir para uma sopa ou um bolo. Nem obrigado expôs. Olhou-me com dificuldade, como quem sofre de ar ocular e virou costas. Vi-o percorrer a rua e ser ignorado por todos. Aquele quarteirão era muito movimentado. Os indivíduos que ali andavam exibiam sorrisos, esquecidos da crise e dos empregos infelizes ou mesmo do desemprego. Ouviam-se gargalhadas espalhafatosas, observava-se maquilhagem cuidada, roupas a condizer. Já o velhinho dos trajes de gigante parecia cada vez mais pequenino. Aquilo tocou-me. Tocou-me por nada mais tocar aquele senhor. Tocou-me por aquele senhor não tocar a mais gente.
Com tensão ganho apetite de massagens. Gosto de massagens, daquelas que se sentem, com bom toque. Massagens que despertam endorfinas e aprumam músculos, tendões e articulações. Também gosto de massajar, da sensação de tocar no outro e oferecer bem estar. Para acabar o dia, ia até ao meu atelier, perdido por Lisboa e pintava. Pinto sempre com as mãos, gosto de sentir o acrílico a escorregar-me pelos dedos, a entrar-me pelas unhas. Não me preocupa o resultado, importa-me somente sentir. Gozo quando o acrílico seca nas minhas mãos e trilha-me a pele.
Por fim, apercebo-me o quanto gosto do toque das teclas do computador, do som que fazem e das palavras que construo com elas e que tanto me tocam.


quinta-feira, 19 de junho de 2014

Parte 1

         por marta marques
Reparei logo nas suas mãos por serem testemunhas daquele encontro. Secas e brancas, com pelos escangalhados e alguns arranhões, grandes e grossas, unhas cortadas à pressa mas limpas. Sorri pela obstinação que mostrava com estes pensamentos. Sorri por pela primeira vez estar a reparar no que nunca reparo e por refletir no que nunca reflito. O livro que levava também foi uma alavanca de partida, não estava na moda, não era demasiado intelectual e mostrava-se em bom estado. Usava como marcador um bilhete de um concerto na Aula Magna, não vi qual o grupo porém gostei do pormenor. Como combinado não fizemos perguntas sobre nós, apenas nos observamos. O seu olhar percorreu-me como se de um capitulo se tratasse.
Gostei daquele olhar. Um olhar de escritor. Não foi o olhar a que estou habituada. O olhar dos homens comuns. O olhar físico. O olhar de esfomeado. Foi um olhar de respeito, um olhar raio x que me despiu sem me invadir a alma, sem me chupar energia. Com energia fiquei eu, senti-me mais forte, mais tranquila. Restava-nos uma hora para o avião, decidimos beber um café e comer um bolo bem português para a despedida. Lambuzamo-nos com perícia e sem entornar a nata do pastel. O tempo que faltava foi para nos embrulharmos nos livros que prometemos trocar no final da aventura.
Nada se atrasou, assim entramos no avião. Fiquei à janela por cavalheirismo, o que lhe deu mais um trunfo, uma maior certeza do que resolvi fazer.
Dormimos, comemos e lemos toda a viagem. Não foi preciso fazer cerimónia, nem nos distraímos a ver o filme que passou na minúscula televisão  no meio do avião. Foram nove horas certas e sem desassossego. Pior foi o tempo passado até sair do aeroporto, inundado de policias, passaportes, esperas incomensuráveis de bagagem e gente antipática. Felizmente tudo se ultrapassa quando o que vem é simplesmente o que expectávamos ou ainda melhor. O calor injetou-se-me da cabeça aos pés deixando-me aquecida, distensa e com a sensação de encaixar ali, como se, finalmente, tivesse colidido no meu habitat. As conversas dos indígenas fizeram-me sentir ainda mais confortável, erradiquei as palavras do silêncio e fiz-me à conversa. Ele olhava-me com gosto mas manteve a postura. Talvez faça parte dele, a sua forma de estar seja assim. Pescamos um táxi até ao hotel, ao som de reggae e de janelas abertas para levar estalos de ar quente apetecidos.
Já no quarto, nas nossas camas separadas, apreciamos em sintonia aquele mar carente. O mar que pede banhos e gente. A alegria que sentia fez-me abraça-lo, sem quebrar as regras.
Suspirei e sentei-me na varanda a fumar um cigarro quando vi o primeiro
beija-flor. Rápido e minúsculo fez-me picos na pele e quase me provocou um grito irritante.
“Sou louca por estes pássaros!”.