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| por marta marques |
Não
sei tocar nenhum instrumento contudo gostava de saber tocar piano. Não me toca
o folclore mas toca-me o fado.
O
toque dos telemóveis é irritante sobretudo numa sala de cinema, durante uma
peça de teatro e desrespeitoso num velório. Há pessoas que me tocam. É fácil
tocarem-me, basta serem genuínas, terem alguma graça e humildade. Tocam-me
muito os animais. Tocam-me mais os do mar porque o mar me toca especialmente. As
ondas monstruosas que não destroem casas mas destroem o stresse e nos varrem a
mente. Toca-me tudo o que pertence ao oceano, as baleias desconcertantes com a
sua pulcritude, as belugas cantantes que nos enfeitiçam, as mantas misteriosas
e os golfinhos galhofeiros. O sal que me fica no corpo depois de um mergulho também
me toca. O cheiro das coisas toca-me. Cheirar o creme que usava em criança
toca-me, faz-me pele aos piquinhos. O cheiro do sótão da minha casa de infância
toca-me, causa-me aperto nos maxilares. O cheiro do perfume da minha primeira
paixão toca-me, solta-me um sorriso.
Gosto
do toque, gosto de tocar. Sei tocar música sim, mas no coração dos outros. Todavia
não é desafinada, é daquelas que entra logo no ouvido, porque nos toca. Quando
toco as pessoas com as minhas palavras fico particularmente tocada. Gosto mais de
tocar o coração dos outros do que ser tocada. Dá-me maior satisfação.
No
entanto adoro o toque. Como o do abraço, o melhor de todos. Aquele
quente,
acolhedor, que não faz comichão. Esse toque é peculiar e nem todos sabem como
funciona.
O
toque da criança que carregamos no ventre... esse deixo-o em silêncio. Impossível
explicar o quanto toca.
O
toque de quem amamos carnalmente também é um toque que me agrada. Queimoso e
vibrante, faz-me sentir o sangue a correr, é um toque que se funde.
Já
as dores físicas tocam-me de forma insuportável. Deixam-me irritada, frustrada,
triste e até em negação. Porém, quando menores concebem-me um maior valor ao
momento.
O
Sol faz-me engolir em seco, toca-me de tal forma que é como se fizesse parte
dele. Filha do Astro-rei. Soa-me bem. Não me parece pretensioso pois esta
estrela toca-me de tal maneira. Por isso escrevi o meu primeiro livro sobre o
Sol.
Tocou-me
quando o vi ilustrado e, pela primeira vez, nas prateleiras de uma livraria.
Foi preclaro. Ainda é, quando apresento o livro nas escolas às crianças,
criaturas terrivelmente tocantes. As perguntas com o dedo no ar, as bocas
abertas, os risos de cumplicidade, as criticas inofensivas, o interesse. Isto
era impossível não me tocar. Tal como alguns filmes. Gosto daqueles com muita
conversa, muitas palavras, muitos pensamentos soltos criadores de ideias que
nos acendem luzes no cérebro. Filmes que no final nos deixam cobiçosos de um esconderijo,
só para podermos digerir o que assistimos.
No
outro dia, vi um velhinho na rua a vender pastilhas elásticas dentro de um cestinho
de verga tão velhinho quanto ele. As pastilhas estavam com tantas cataratas
como este parecia ter. Pedia uma ninharia por cada. Era muito magrinho, usava
roupa que lhe dava para 2 gémeos dele e parecia não se dar conta do frio que se
sentia naquela noite, estava firme e aparentava tranquilidade. O olhar
embaciado era assustadoramente apático. Não havia emoções, aproximava-se com a
vergonha perdida e revelava precisar de dinheiro.
Dei-lhe
moedas para uns dez balões elásticos mas recusei as guloseimas. Apenas quis
contribuir para uma sopa ou um bolo. Nem obrigado expôs. Olhou-me com
dificuldade, como quem sofre de ar ocular e virou costas. Vi-o percorrer a rua
e ser ignorado por todos. Aquele quarteirão era muito movimentado. Os
indivíduos que ali andavam exibiam sorrisos, esquecidos da crise e dos empregos
infelizes ou mesmo do desemprego. Ouviam-se gargalhadas espalhafatosas,
observava-se maquilhagem cuidada, roupas a condizer. Já o velhinho dos trajes
de gigante parecia cada vez mais pequenino. Aquilo tocou-me. Tocou-me por nada
mais tocar aquele senhor. Tocou-me por aquele senhor não tocar a mais gente.
Com
tensão ganho apetite de massagens. Gosto de massagens, daquelas que se sentem,
com bom toque. Massagens que despertam endorfinas e aprumam músculos, tendões e
articulações. Também gosto de massajar, da sensação de tocar no outro e oferecer
bem estar. Para acabar o dia, ia até ao meu atelier, perdido por Lisboa e pintava.
Pinto sempre com as mãos, gosto de sentir o acrílico a escorregar-me pelos
dedos, a entrar-me pelas unhas. Não me preocupa o resultado, importa-me somente
sentir. Gozo quando o acrílico seca nas minhas mãos e trilha-me a pele.
Por
fim, apercebo-me o quanto gosto do toque das teclas do computador, do som que
fazem e das palavras que construo com elas e que tanto me tocam.