domingo, 22 de junho de 2014

sobre o TOQUE

          por marta marques


Não sei tocar nenhum instrumento contudo gostava de saber tocar piano. Não me toca o folclore mas toca-me o fado.
O toque dos telemóveis é irritante sobretudo numa sala de cinema, durante uma peça de teatro e desrespeitoso num velório. Há pessoas que me tocam. É fácil tocarem-me, basta serem genuínas, terem alguma graça e humildade. Tocam-me muito os animais. Tocam-me mais os do mar porque o mar me toca especialmente. As ondas monstruosas que não destroem casas mas destroem o stresse e nos varrem a mente. Toca-me tudo o que pertence ao oceano, as baleias desconcertantes com a sua pulcritude, as belugas cantantes que nos enfeitiçam, as mantas misteriosas e os golfinhos galhofeiros. O sal que me fica no corpo depois de um mergulho também me toca. O cheiro das coisas toca-me. Cheirar o creme que usava em criança toca-me, faz-me pele aos piquinhos. O cheiro do sótão da minha casa de infância toca-me, causa-me aperto nos maxilares. O cheiro do perfume da minha primeira paixão toca-me, solta-me um sorriso.
Gosto do toque, gosto de tocar. Sei tocar música sim, mas no coração dos outros. Todavia não é desafinada, é daquelas que entra logo no ouvido, porque nos toca. Quando toco as pessoas com as minhas palavras fico particularmente tocada. Gosto mais de tocar o coração dos outros do que ser tocada. Dá-me maior satisfação.
No entanto adoro o toque. Como o do abraço, o melhor de todos. Aquele
quente, acolhedor, que não faz comichão. Esse toque é peculiar e nem todos sabem como funciona.
O toque da criança que carregamos no ventre... esse deixo-o em silêncio. Impossível explicar o quanto toca.
O toque de quem amamos carnalmente também é um toque que me agrada. Queimoso e vibrante, faz-me sentir o sangue a correr, é um toque que se funde.
Já as dores físicas tocam-me de forma insuportável. Deixam-me irritada, frustrada, triste e até em negação. Porém, quando menores concebem-me um maior valor ao momento.
O Sol faz-me engolir em seco, toca-me de tal forma que é como se fizesse parte dele. Filha do Astro-rei. Soa-me bem. Não me parece pretensioso pois esta estrela toca-me de tal maneira. Por isso escrevi o meu primeiro livro sobre o Sol.
Tocou-me quando o vi ilustrado e, pela primeira vez, nas prateleiras de uma livraria. Foi preclaro. Ainda é, quando apresento o livro nas escolas às crianças, criaturas terrivelmente tocantes. As perguntas com o dedo no ar, as bocas abertas, os risos de cumplicidade, as criticas inofensivas, o interesse. Isto era impossível não me tocar. Tal como alguns filmes. Gosto daqueles com muita conversa, muitas palavras, muitos pensamentos soltos criadores de ideias que nos acendem luzes no cérebro. Filmes que no final nos deixam cobiçosos de um esconderijo, só para podermos digerir o que assistimos.
No outro dia, vi um velhinho na rua a vender pastilhas elásticas dentro de um cestinho de verga tão velhinho quanto ele. As pastilhas estavam com tantas cataratas como este parecia ter. Pedia uma ninharia por cada. Era muito magrinho, usava roupa que lhe dava para 2 gémeos dele e parecia não se dar conta do frio que se sentia naquela noite, estava firme e aparentava tranquilidade. O olhar embaciado era assustadoramente apático. Não havia emoções, aproximava-se com a vergonha perdida e revelava precisar de dinheiro.
Dei-lhe moedas para uns dez balões elásticos mas recusei as guloseimas. Apenas quis contribuir para uma sopa ou um bolo. Nem obrigado expôs. Olhou-me com dificuldade, como quem sofre de ar ocular e virou costas. Vi-o percorrer a rua e ser ignorado por todos. Aquele quarteirão era muito movimentado. Os indivíduos que ali andavam exibiam sorrisos, esquecidos da crise e dos empregos infelizes ou mesmo do desemprego. Ouviam-se gargalhadas espalhafatosas, observava-se maquilhagem cuidada, roupas a condizer. Já o velhinho dos trajes de gigante parecia cada vez mais pequenino. Aquilo tocou-me. Tocou-me por nada mais tocar aquele senhor. Tocou-me por aquele senhor não tocar a mais gente.
Com tensão ganho apetite de massagens. Gosto de massagens, daquelas que se sentem, com bom toque. Massagens que despertam endorfinas e aprumam músculos, tendões e articulações. Também gosto de massajar, da sensação de tocar no outro e oferecer bem estar. Para acabar o dia, ia até ao meu atelier, perdido por Lisboa e pintava. Pinto sempre com as mãos, gosto de sentir o acrílico a escorregar-me pelos dedos, a entrar-me pelas unhas. Não me preocupa o resultado, importa-me somente sentir. Gozo quando o acrílico seca nas minhas mãos e trilha-me a pele.
Por fim, apercebo-me o quanto gosto do toque das teclas do computador, do som que fazem e das palavras que construo com elas e que tanto me tocam.