quinta-feira, 19 de junho de 2014

Parte 1

         por marta marques
Reparei logo nas suas mãos por serem testemunhas daquele encontro. Secas e brancas, com pelos escangalhados e alguns arranhões, grandes e grossas, unhas cortadas à pressa mas limpas. Sorri pela obstinação que mostrava com estes pensamentos. Sorri por pela primeira vez estar a reparar no que nunca reparo e por refletir no que nunca reflito. O livro que levava também foi uma alavanca de partida, não estava na moda, não era demasiado intelectual e mostrava-se em bom estado. Usava como marcador um bilhete de um concerto na Aula Magna, não vi qual o grupo porém gostei do pormenor. Como combinado não fizemos perguntas sobre nós, apenas nos observamos. O seu olhar percorreu-me como se de um capitulo se tratasse.
Gostei daquele olhar. Um olhar de escritor. Não foi o olhar a que estou habituada. O olhar dos homens comuns. O olhar físico. O olhar de esfomeado. Foi um olhar de respeito, um olhar raio x que me despiu sem me invadir a alma, sem me chupar energia. Com energia fiquei eu, senti-me mais forte, mais tranquila. Restava-nos uma hora para o avião, decidimos beber um café e comer um bolo bem português para a despedida. Lambuzamo-nos com perícia e sem entornar a nata do pastel. O tempo que faltava foi para nos embrulharmos nos livros que prometemos trocar no final da aventura.
Nada se atrasou, assim entramos no avião. Fiquei à janela por cavalheirismo, o que lhe deu mais um trunfo, uma maior certeza do que resolvi fazer.
Dormimos, comemos e lemos toda a viagem. Não foi preciso fazer cerimónia, nem nos distraímos a ver o filme que passou na minúscula televisão  no meio do avião. Foram nove horas certas e sem desassossego. Pior foi o tempo passado até sair do aeroporto, inundado de policias, passaportes, esperas incomensuráveis de bagagem e gente antipática. Felizmente tudo se ultrapassa quando o que vem é simplesmente o que expectávamos ou ainda melhor. O calor injetou-se-me da cabeça aos pés deixando-me aquecida, distensa e com a sensação de encaixar ali, como se, finalmente, tivesse colidido no meu habitat. As conversas dos indígenas fizeram-me sentir ainda mais confortável, erradiquei as palavras do silêncio e fiz-me à conversa. Ele olhava-me com gosto mas manteve a postura. Talvez faça parte dele, a sua forma de estar seja assim. Pescamos um táxi até ao hotel, ao som de reggae e de janelas abertas para levar estalos de ar quente apetecidos.
Já no quarto, nas nossas camas separadas, apreciamos em sintonia aquele mar carente. O mar que pede banhos e gente. A alegria que sentia fez-me abraça-lo, sem quebrar as regras.
Suspirei e sentei-me na varanda a fumar um cigarro quando vi o primeiro
beija-flor. Rápido e minúsculo fez-me picos na pele e quase me provocou um grito irritante.
“Sou louca por estes pássaros!”.