| por marta marques |
Gostei daquele olhar. Um olhar de escritor. Não foi o olhar
a que estou habituada. O olhar dos homens comuns. O olhar físico. O olhar de
esfomeado. Foi um olhar de respeito, um olhar raio x que me despiu sem me
invadir a alma, sem me chupar energia. Com energia fiquei eu, senti-me mais
forte, mais tranquila. Restava-nos uma hora para o avião, decidimos beber um
café e comer um bolo bem português para a despedida. Lambuzamo-nos com perícia
e sem entornar a nata do pastel. O tempo que faltava foi para nos embrulharmos
nos livros que prometemos trocar no final da aventura.
Nada se atrasou, assim entramos no avião. Fiquei à janela
por cavalheirismo, o que lhe deu mais um trunfo, uma maior certeza do que resolvi
fazer.
Dormimos, comemos e lemos toda a viagem. Não foi preciso
fazer cerimónia, nem nos distraímos a ver o filme que passou na minúscula
televisão no meio do avião. Foram nove
horas certas e sem desassossego. Pior foi o tempo passado até sair do
aeroporto, inundado de policias, passaportes, esperas incomensuráveis de bagagem
e gente antipática. Felizmente tudo se ultrapassa quando o que vem é
simplesmente o que expectávamos ou ainda melhor. O calor injetou-se-me da
cabeça aos pés deixando-me aquecida, distensa e com a sensação de encaixar ali,
como se, finalmente, tivesse colidido no meu habitat. As conversas dos indígenas fizeram-me sentir ainda mais
confortável, erradiquei as palavras do silêncio e fiz-me à conversa. Ele
olhava-me com gosto mas manteve a postura. Talvez faça parte dele, a sua forma
de estar seja assim. Pescamos um táxi até ao hotel, ao som de reggae e de janelas abertas para levar
estalos de ar quente apetecidos.
Já no quarto, nas nossas camas separadas, apreciamos em
sintonia aquele mar carente. O mar que pede banhos e gente. A alegria que
sentia fez-me abraça-lo, sem quebrar as regras.
Suspirei e sentei-me na varanda a fumar um cigarro quando vi
o primeiro
beija-flor. Rápido e minúsculo fez-me picos na pele e quase me
provocou um grito irritante.
“Sou louca por estes pássaros!”.