segunda-feira, 23 de junho de 2014

Oferecem-se lágrimas

por marta marques
“Compre um frasco de lágrimas e aplica uma lágrima em cada olho, três a quatro vezes ao dia”, foi a prescrição do oftalmologista. A minha vista precisa de hidratação, segundo o médico sofro de olhos secos, “com tendência a inflamar e a serem vitimas de conjuntivites contínuas”. Ao ouvir isto, a minha filha pergunta-me como se fazem lágrimas. “Juntam-se lágrimas do choro de várias pessoas para emprestar a quem precisa?”.
“Não. São lágrimas artificiais”, objetei. Respondi como adulta, como a mãe que explica as coisas, embora quisesse dizer que sim, que os humanos partilham lágrimas. Sempre gostei de lhes contar estórias bonitas mas há balizas. As minhas crias cresceram a considerar a existência do Pai Natal, a julgar as cores inconcebíveis que um por do Sol produz pintadas por fadas e as estrelas filhas do astro-rei e da lua que engravida mensalmente, permanecendo tão preenchida e bonita como qualquer mulher grávida. Ponderam que os falecidos vão viver para uma dessas estrelas e olham por nós. Podem sentir a luz vinda do avô querido, da tia Amelinha, do gato Nuvem e de muitas pessoas bonitas como o senhor Mandela e Jesus. Todos residem nesses pontos de luz e brilham sem se fatigarem.
É bom saber que eles admitem essa realidade. Não faz mal inventar estas estórias quando nem eu sei o que acontece a quem já partiu. A saudade dói, mas também lhes digo para apreciarem essa dor como algo doce, porque a saudade é terna, sentir falta do que partiu é porque nos encheu quando estava ao nosso lado e isso é agradável. Evidencio ser uma otimista quando falo com os meus filhos e sacio-me de orgulho por os encher de esperança neste globo maldito. Tenho o Sol como aliado, dá-me força quando sinto o seu calor na minha pele e tenho o privilégio de ver a cor que este reflete em tudo o que toca, é quando adivinho a beleza como algo transcendente e julgo-a uma bênção. Todavia, tudo é uma enorme treta nos dia cinzentos. Quando dou por mim a tomar seis comprimidos de manhã para me enganar e escondo-os dos meus filhos. Um para proteger o estômago, um para ser mais feliz, um para dar energia, um para tirar as dores, um para criar defesas e outro para sossegar a ansiedade. Tomo-os e finjo acreditar neles. Uma hipocrisia para andar em frente. Há muito que perdi as forças para navegar no trenó do Pai Natal e me aconchegar num amigo. Uma mãe faz destas coisas, só uma mãe sozinha sabe o que é ter de jogar com a própria vida para dar cor à vida dos filhos, mesmo no dia mais cinzento.


... choro, choro convictamente e penso como tenho tantas e tremendas lágrimas para doar a quem tem olhos secos como o deserto.