| por marta marques |
“Não. São lágrimas artificiais”, objetei. Respondi como
adulta, como a mãe que explica as coisas, embora quisesse dizer que sim, que os
humanos partilham lágrimas. Sempre gostei de lhes contar estórias bonitas mas
há balizas. As minhas crias cresceram a considerar a existência do Pai Natal, a
julgar as cores inconcebíveis que um por do Sol produz pintadas por fadas e as
estrelas filhas do astro-rei e da lua que engravida mensalmente, permanecendo
tão preenchida e bonita como qualquer mulher grávida. Ponderam que os falecidos
vão viver para uma dessas estrelas e olham por nós. Podem sentir a luz vinda do
avô querido, da tia Amelinha, do gato Nuvem e de muitas pessoas bonitas como o
senhor Mandela e Jesus. Todos residem nesses pontos de luz e brilham sem se fatigarem.
É bom saber que eles admitem essa realidade. Não faz mal
inventar estas estórias quando nem eu sei o que acontece a quem já partiu. A
saudade dói, mas também lhes digo para apreciarem essa dor como algo doce,
porque a saudade é terna, sentir falta do que partiu é porque nos encheu quando
estava ao nosso lado e isso é agradável. Evidencio ser uma otimista quando falo
com os meus filhos e sacio-me de orgulho por os encher de esperança neste globo
maldito. Tenho o Sol como aliado, dá-me força quando sinto o seu calor na minha
pele e tenho o privilégio de ver a cor que este reflete em tudo o que toca, é
quando adivinho a beleza como algo transcendente e julgo-a uma bênção. Todavia,
tudo é uma enorme treta nos dia cinzentos. Quando dou por mim a tomar seis
comprimidos de manhã para me enganar e escondo-os dos meus filhos. Um para
proteger o estômago, um para ser mais feliz, um para dar energia, um para tirar
as dores, um para criar defesas e outro para sossegar a ansiedade. Tomo-os e
finjo acreditar neles. Uma hipocrisia para andar em frente. Há muito que perdi
as forças para navegar no trenó do Pai Natal e me aconchegar num amigo. Uma mãe
faz destas coisas, só uma mãe sozinha sabe o que é ter de jogar com a própria
vida para dar cor à vida dos filhos, mesmo no dia mais cinzento.
... choro, choro convictamente e penso como tenho tantas e tremendas
lágrimas para doar a quem tem olhos secos como o deserto.