terça-feira, 17 de junho de 2014

Nem a mim me pertenço

   por marta marques
Não sou de ninguém. Nem a mim me pertenço. Desfruto de um corpo emprestado para exprimir de forma material o que me vai no espírito. Por vezes sufocada cá dentro, sinto vontade de me trepar e sair pela boca, parece-me o buraco mais simpático para escapar. Risos. Divirto-me a imaginar-me a escapulir deste corpo e, de seguida, a olhá-lo com desprezo caído no chão, como um trapo velho. Para contrariar esta ideia olho-me no espelho, séria, abro e fecho os olhos, mexo no cabelo, apalmo os meus seios e com o dedo contorno-os. Examino também a barriga e os ossos salientes da anca. As virilhas fazem-me escorrer nelas, como conseguem ser tão deleitosas? Sinto a vagina e gosto do calor com cheiro a verão, sentada aprecio a pequena musculatura das pernas até chegar aos pés. Esses pobres coitados que carregam com tudo. Sorrio-lhes. A eles dedico mais tempo. Coloco creme, massajo-os, usufruo dos movimentos que fazem. Gosto de os ver esticados como se fossem pés de bailaria, a curva que manifestam é bela, feminina. As tatuagens com que torturei a pele também fazem parte do todo. Não me arrependo, são minhas, fundidas em mim e têm história. Os meus olhos também têm história. Rodeados de rugas alojadas que dão uma textura bem mais interessante a toda esta personagem física que ganhei, herdei. É sem dúvida uma cara real, é uma cara transparente, facilmente faço o raio x deste meu corpo físico e encontro a outra parte da história. 
Há dor, muita. Há momentos de felicidade incríveis e únicos. Memórias sem tempo porque não são efémeras. São minhas, fazem de mim aquilo que sou e enchem-me a alma quando preciso catar forças. Descubro um saco a transbordar de lágrimas, estranho, pensei que já estava
meio vazio. Porém, está tão cheio que algumas fogem quando ainda observo o meu reflexo. Engulo em seco e suspiro como forma de travão ao que aí vem.
Cansada de chorar.

Acaricio o meu pescoço a caminho do coração. Aqui coloco cortinas na vista. Abro as mãos e poiso-as por cima deste motor de vida. Os batuques vão acalmando, são tranquilizadores. Embalam e cheiram a natureza, a algo selvagem. Inexequível não visualizar aquele cavalo livre a galopar sem destino. Saboreio uma das minhas lágrimas com gosto a sal. Sabe bem. Sorrio. Descubro-te também a ti no meu coração, estás parado e também sorris, sinto a tua felicidade ao veres este equino voar. Sinto a nossa fusão, a nossa verdade. Sinto-te, estás em mim. Beijo-te como se fosse a ultima vez. E desligo a luz do espelho.