| jamaica/ por marta marques |
As montanhas emocionam com a virgindade oferecida, gelam a
respiração e fazem-me querer voltar. Já regressei por isso algumas vezes,
porque aqui apaixono-me todos os dias. O mar continuamente sedutor, o calor que
nos abraça, as estrelas que se tornam íntimas, o som da noite, sinistro quanto
divertido e os magistrais beija-flores. O humor mal humorado dos indígenas não
é para todos os gostos bem como a erva que fumam incansavelmente. Contudo, o reggae parece ser dos sons mais amados e
não obriga a coreografias. O sabor distinto a picante na comida e o café
estranhamente deleitável. Sinto-me tão encaixada que pondero não retornar a
Lisboa. Mais uma vez, a quinzena sabe a pouco, há muita ilha por descobrir,
aventuras para gozar. Porém aquela noite superou tudo. Tão quimérica que receio
deixar fugir, guardo-a firmemente na memória curta que tenho. Naquela noite
conheci a Lagoa Luminosa, num barco de pesca velho. Sentenciei ir ao engano,
ter gasto dinheiro numa daquelas excursões patetas, mas fui na mesma. A lua
exibia-se cheia e nós no meio de uma lagoa escura, onde o céu negro se
misturava com a água negra e com os pescadores negros. Bebiam rum e falavam
estridentemente num inglês arranhado. A reação entre os turistas era a mesma. “Vamos
mergulhar? Haverá crocodilos? A água está fria?”. Os rastafáris não deram
explicações. Assim, saltei. A água era quente, fácil de nadar, parecia que
boiávamos gratuitamente. Aquela experiência à luz das estrelas já era
suficientemente boa e valia o dinheiro gasto. Até aperceber-me do lugar onde
estava. Todos e quaisquer movimentos que fazia na água produziam rastos
luminosos. A água estava efectivamente luminosa com os movimentos do meu corpo,
como se as estrelas tivessem também mergulhado.
A beleza inexplicável fez daquele momento o mais mágico que
vivi.