| por marta marques |
O mar. O mar é meu, teu, de quem o amar. O mar é de quem não o amar. O mar está de braços abertos e, embora rebelde, é com paz que abraça. Abraça as lágrimas, os suspiros, varre o que intoxica e limpa sem nada cobrar. Não fala a mesma língua mas entende e ouve. Ouve tudo sem se queixar. Por vezes, insubmisso, deita a língua de fora e grita colérico. Ninguém o sossega, ninguém se atreve a confrontar este furor. Violado, leva com tudo o que ninguém quer, o meu lixo, o teu e o de todas as pessoas. Oferece-nos alimento, permite-nos gracejar nas suas pequenas e grandes expressões, dá-nos momentos de uma veemência sedativa e mostra sempre o seu lado fotogénico, mesmo para quem não deveria usar uma máquina fotográfica. O horizonte confia-lhe quaisquer cores e até o Sol descansa tantas e tantas vezes na sua manta. A lua mentirosa não se fatiga de o apalpar com os seus reflexos, vestindo-o de um brilho que só este tem corpo para usar. Nele navegaram e navegam sem o tranquilizar, roubam-lhe o descanso, arriscam bambolear mesmo quando está mais irrequieto. Embora até o mais ignorante saiba que é o mar o mais poderoso, muitos teimam em o picar, magoar e roubar. É no mar que vejo o meu reflexo secreto, o espelho do meu íntimo, nele peço conforto e dele recebo força. Respeito-o hoje, respeito a sua revelia, as suas arrelias e aprecio a sua fusão nas rochas que, aos poucos, vão-se moldando à sua disposição.O mar é meu, teu, de quem o amar. O mar é de quem não o amar. Nele mergulho fundo e ouço-o. Aprecio os habitantes que ali respiram e sonho no dia em que ganho escamas e uma cauda para me infiltrar. Encontro uma baleia, julguei-a morta um dia porém encontro o seu espírito livre e potente, em sintonia com o pulsar do mar. Emociono-me, dissolvo as minhas lágrimas no sal. Entrego-me a esta paz, tremendamente assustadora, tremendamente apetecível. Rendo-me, de braços abertos e olhos cerrados, encho-me de mar e deixo que me engula. O medo, o sufoco são tão reais como a calma em que embato. Nas entranhas do mar encontro a luz, encaro a parte que me faltava. A respiração já não me faz falta porque me untei com o verdadeiro poder, com a bênção de não ser mais um. No mar faço agora parte do todo.Agora sou eu, sou tu, sou todos. Sou de quem me amar. Sou de quem não me amar.